O aumento na mistura do biodiesel no diesel de 15% para 16% (B16) é a principal demanda do setor e já conta com aval do Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que, em abril, sinalizou o interesse do governo em aumentar o teor da mistura. Apesar do cancelamento da última reunião do CNPE (Conselho Nacional de Política Energética), que iria tratar sobre o aumento na mistura obrigatória, os testes para viabilidade da mudança devem começar ainda em 2026.
Desde a criação do PNBD (Programa Nacional do Biodiesel) em 2004, esse seria o décimo quarto aumento após três anos de estagnação no B15.
Apesar da mobilização política com a criação da Lei do Combustível do Futuro, que prevê aumento anual de 1% na mistura de biocombustíveis na gasolina e no diesel, o percentual de mistura do biodiesel segue distante do etanol, que conta com uma política de incentivo bem estabelecida.
Desde a criação do Próaloccol na década de 1970, há uma pressão do governo e de empresas privadas em avançar o teor de etanol anidro nas bombas de gasolina. Com a última sinalização de Lula, a mistura deve saltar de 30% para 32% (E32).
Segundo o professor do MBA de ESG e Sustentabilidade da FGV, Jaques Paes, a diferença de quatro décadas entre os dois programas de incentivo não é a principal causa para a disparidade entre as misturas.
“A ideia de que é mais fácil mexer no etanol na gasolina do que biodiesel no diesel não é uma questão retórica ou histórica. Ela é uma questão química mesmo, mecânica e também sistêmicas ao mesmo tempo”, explicou.
Consultorias, inclusive, evidenciam que 2026 será um ano de aceleração para a indústria de biocombustíveis em uma transição de decisões que começa no campo. A inglesa Argus destacou que o óleo de soja tem mantido a competitividade e a alcunha de matéria-prima dominante na América Latina, em especial no Brasil, puxado pela demanda de combustíveis sustentáveis. Além disso, a produção de etanol e a decisão de usinas por priorizar o biocombustível se apresenta atrativa diante da guerra no Oriente Médio e do preço da gasolina menos competitivo nas bombas.
Gasolina mais cara e limites do avanço
“A gasolina aceita mais etanol porque o motor e o combustível toleram essa variação. No biodiesel há uma alteração química que exige mais da operação e tem um limite técnico que aparece mais rápido. O etanol já é mais testado. Nós erramos mais vezes, o que significa que aprendemos mais vezes”, complementou Paes.
Na avaliação do especialista, o salto de 1% no teor de biodiesel passa por mudanças sistemicas para preparo de infraestrutura, motores e do próprio combustível. Um dos principais entraves que freia o avanço do biodiesel na mesma marcha que o etanol é a adaptação e aceitação da mistura.
“O etanol não muda o comportamento do combustível e o sistema consegue absorver. Já o biodiesel muda o comportamento e o sistema reage. A principal diferença é o impacto no sistema”, afirmou. O especialista detalhou que o biodiesel tradicional tem limitações químicas: ele oxida mais e absorve mais água. Aumentar o percentual exige um redesenho do sistema e a observância rigorosa de limites técnicos”, complementou.
Segundo o pesquisador, a melhor compatibilidade química entre os combustíveis, somado às quatro décadas de incentivo torna “natural” o avanço na mistura, que pode chegar até 35% em 2030. “Um salto no teor do etanol na gasolina envolve só a mistura, enquanto para o biodiesel, passa por mudanças em toda a cadeia”, frisou.
Momento oportuno para avanços
Com o conflito no Oriente Médio e o aumento das incertezas sobre o abastecimento energético, voltou à tona a discussão pelo aumento do uso de biocombustíveis na matriz brasileira. O pesquisador destaca que, cada momento de instabilidade geopolítica na região abre uma nova janela para avanços na política de biocombustíveis.
“Quando o Proálcool foi lançado, nós estávamos numa crise do petróleo e precisávamos reduzir a dependência externa. Hoje esse cenário se repete. Temos uma dependência muito forte e o preço aumenta significativamente com conflitos como a guerra do Irã”, afirmou. “O biodiesel começa a chamar mais atenção quando temos restrições de petróleo. Ele vem para a crista da onda toda vez que existe uma possibilidade de rompimento no abastecimento ou um risco de se materializar”, complementou.
O presidente-executivo da Abiove, André Nassar, também defende que o atual momento é atrativo para avançar nos testes. “O nosso pleito principal é: vamos aproveitar o momento para fazer os testes o mais rápido possível, em quatro a cinco meses. Então o governo pode decidir subir o teor quando quiser”, afirmou.
Na avaliação de Jaques Paes, para melhor aproveitamento do potencial do Brasil em fontes de energia verde, é preciso mais comprometimento de políticas públicas independente do mandato presidencial.
“Este assunto é tratado de uma forma muito rasa. Ele é tratado como uma política de governo, não como uma política de Estado. E aí nós temos um problema sério, porque a cada 4 anos nós temos aí uma mudança nisso”, disse.