O câncer sempre foi associado, principalmente, a hábitos de vida e fatores ambientais. No entanto, um estudo publicado em 27 de abril na revista científica The Lancet Regional Health, reforça que, para uma parcela relevante dos pacientes, o risco começa antes mesmo do nascimento — no DNA herdado da família.
A pesquisa analisou materiais genéticos de 275 participantes brasileiros com câncer e identificou que cerca de 10% carregam mutações genéticas hereditárias associadas ao desenvolvimento da doença. Utilizando técnicas de sequenciamento genético, os cientistas buscaram variantes herdadas que aumentam a predisposição ao surgimento de tumores.
Os cientistas identificaram mutações patogênicas em genes já conhecidos por sua relação com o câncer, como BRCA1, BRCA2 e TP53, que estão ligados principalmente a tumores de mama, ovário, próstata e intestino. Os resultados mostram que essas alterações hereditárias não são raras e têm impacto direto na forma como a doença se desenvolve e evolui.
Quando o risco vem de família
Diferentemente das mutações adquiridas ao longo da vida, as alterações hereditárias estão presentes desde o nascimento e podem ser transmitidas entre gerações.
Na prática, elas comprometem mecanismos naturais do organismo responsáveis por corrigir falhas no DNA. Com essa proteção reduzida, células danificadas têm maior chance de se multiplicar de forma descontrolada — dando origem ao câncer.
Por isso, pessoas com histórico familiar da doença, especialmente em idades mais jovens, podem ter risco aumentado. Identificar uma mutação hereditária pode transformar completamente o acompanhamento médico de um paciente.
Em alguns casos, a informação genética também influencia decisões terapêuticas, permitindo o uso de tratamentos mais direcionados. Com o diagnóstico genético, é possível:
- Antecipar exames de rastreamento;
- Intensificar a vigilância clínica;
- Orientar medidas de prevenção;
- Avaliar o risco em parentes de primeiro grau.
Desafio ainda é ampliar o acesso
Apesar dos avanços, os pesquisadores alertam que o acesso a testes genéticos no Brasil ainda é limitado, o que faz com que muitos casos de predisposição hereditária não sejam identificados. A ampliação dessas ferramentas, segundo o estudo, pode contribuir para diagnósticos mais precoces e estratégias mais eficazes de prevenção.
Embora o fator genético tenha peso importante, ele não atua isoladamente. A maior parte dos casos de câncer ainda está associada a fatores como alimentação, sedentarismo, tabagismo e envelhecimento.
Ainda assim, o estudo reforça que entender o próprio histórico familiar e, quando indicado, investigar o DNA, pode fazer diferença no risco e no desfecho da doença.
No avanço da medicina personalizada, a genética deixa de ser apenas um fator invisível e passa a ser uma ferramenta concreta para antecipar riscos — e salvar vidas.