
Mesmo após uma ofensiva agressiva contra políticas climáticas e incentivos verdes, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump acabou produzindo um efeito inesperado sobre a transição energética global: fortalecer, ainda que indiretamente, o avanço das energias renováveis.
A combinação entre tensões geopolíticas, aumento do preço dos combustíveis fósseis, expansão acelerada da inteligência artificial e queda do custo da energia solar e eólica vem impulsionando investimentos em fontes limpas nos Estados Unidos e em outras partes do mundo.
Analistas do setor afirmam que a energia renovável passou a ser vista menos como uma agenda ambiental e mais como uma questão de segurança energética, competitividade econômica e redução de custos.
Em março deste ano, pela primeira vez na história dos EUA, a geração de eletricidade por fontes renováveis superou a produzida por usinas movidas a gás natural, segundo dados do setor energético americano.
Escalada no Oriente Médio elevou pressão por independência energética
A guerra envolvendo o Irã e as ameaças ao estreito de Ormuz, rota estratégica para o transporte global de petróleo e gás, provocaram disparada nos preços internacionais dos combustíveis fósseis e ampliaram temores sobre a dependência energética de países importadores.
A reação foi imediata em diferentes mercados. Na Europa, as vendas de veículos elétricos registraram forte alta nos primeiros meses do ano. Países altamente dependentes de importações de petróleo, como a Coreia do Sul, passaram a acelerar planos de expansão de energia solar, eólica e armazenamento em baterias.
Mais de 50 países reunidos na Colômbia no fim de abril também avançaram em compromissos para reduzir gradualmente o uso de combustíveis fósseis, em um movimento raro de coordenação internacional em torno da transição energética.
Ao mesmo tempo, investidores ampliaram aportes em fundos ligados à energia limpa no ritmo mais forte dos últimos cinco anos, apostando que a instabilidade geopolítica tornará renováveis ainda mais estratégicas no longo prazo.
Trump tenta desmontar agenda climática
Desde que voltou à Casa Branca, em janeiro de 2025, Trump retomou sua política de apoio à indústria do petróleo, gás e carvão. O republicano retirou novamente os Estados Unidos do Acordo de Paris, reduziu incentivos fiscais para projetos verdes e flexibilizou regulações ambientais.
Em discursos recentes, o presidente voltou a defender o slogan “drill, baby, drill” (“perfure, baby, perfure”), símbolo da expansão da produção de petróleo nos EUA.
A administração também tentou frear projetos de energia eólica offshore e desmontar medidas climáticas aprovadas durante o governo de Joe Biden.
Parte do setor de petróleo se beneficiou diretamente desse cenário. Grandes companhias registraram aumento de lucros com a disparada do preço do barril causada pela guerra no Oriente Médio.
Ainda assim, especialistas avaliam que o mercado acabou impondo limites às tentativas da Casa Branca de desacelerar a transição energética.
Energia solar e baterias lideram expansão nos EUA
Mesmo com o corte de subsídios federais, os Estados Unidos devem registrar em 2026 a maior expansão de capacidade elétrica em mais de duas décadas.
Segundo a Agência de Informação de Energia dos EUA (EIA), o país prevê adicionar 86 gigawatts de nova capacidade elétrica neste ano. Desse total, 93% virão de energia solar, eólica e sistemas de armazenamento em baterias.
A energia solar sozinha responderá por mais da metade das novas instalações previstas.
Especialistas apontam três razões principais para isso.
A primeira é econômica. Estudos recentes mostram que projetos solares e eólicos combinados com baterias já competem em preço com usinas movidas a carvão e gás natural.
A segunda é o tempo de implantação. Usinas solares podem entrar em operação muito mais rapidamente do que novas termelétricas a gás, cuja construção enfrenta gargalos de infraestrutura e aumento de custos.
A terceira é a explosão da demanda energética provocada pela inteligência artificial.
Boom da IA cria nova corrida por eletricidade
A expansão de data centers voltados para IA se tornou um dos principais motores do crescimento da demanda por energia nos Estados Unidos.
Estimativas do setor apontam que os data centers poderão consumir até 12% de toda a eletricidade americana até 2028. Empresas de tecnologia vêm acelerando investimentos bilionários em infraestrutura computacional, estimuladas inclusive por políticas de desregulamentação defendidas pelo próprio Trump.
Esse crescimento criou um paradoxo: ao incentivar o avanço da IA, a Casa Branca acabou fortalecendo também a demanda por fontes renováveis.
Analistas afirmam que tecnologias como solar e baterias se tornaram alternativas mais rápidas e baratas para abastecer novos centros de dados do que a construção de usinas movidas a gás.
Texas se torna símbolo da virada energética
O caso do Texas resume parte dessa transformação.
Estado historicamente ligado à indústria do petróleo, o Texas virou também líder nacional em geração eólica e um dos maiores mercados de energia solar e armazenamento em baterias dos EUA.
A expansão acelerada das renováveis no estado ocorre principalmente por razões econômicas. Empresas buscam energia mais barata e rápida de instalar para atender o crescimento industrial e tecnológico.
Transição deixa de ser apenas pauta ambiental
Especialistas avaliam que a principal mudança dos últimos anos é política e econômica.
Durante muito tempo, a defesa da transição energética esteve associada sobretudo ao combate às mudanças climáticas. Agora, governos e consumidores passaram a enxergar renováveis como instrumentos de segurança nacional, estabilidade de preços e independência energética.
Essa mudança ajuda a explicar por que o avanço da energia limpa continua acelerado mesmo em um ambiente político hostil em Washington.
Na avaliação de analistas do setor, o movimento tornou a transição energética mais resiliente e menos dependente de subsídios governamentais ou discursos ambientais.