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Afrontar um sumo pontífice, liderança religiosa com dois milênios de história e reverenciada por milhões, é sempre um risco — como constatou, entre muitos outros, Henrique IV, que reinou sobre o Sacro Império Romano-Germânico no século XI e, em 1077, passou três dias descalço na neve, em penitência, à espera de se retratar com o papa Gregório VII após chamá-lo de “falso monge”. Nada, porém, que faça calar Donald Trump, cuja metralhadora verbal não poupa ninguém. O presidente americano já havia comprado briga com Francisco, o argentino que percorreu o pontificado sem muitas papas na língua. Logo depois da morte de Jorge Mario Bergoglio, no ano passado, Trump candidatou-se — de brincadeira, claro, mas sem graça — à sucessão na Santa Sé. E agora escala as estocadas ao papa Leão XIV, primeiro americano a sentar-se no Trono de Pedro, que condenou a guerra no Oriente Médio e caiu direto na rede de mensagens trumpistas em letras garrafais, com exclamações, qualificado de “fraco em relação a crimes” e “péssimo em política externa”.

De lá para cá, o confronto se aprofundou, em um bate-rebate em que Trump virou alvo de críticas internacionais e, sobretudo, de parte de sua fiel base eleitoral, recheada de católicos conservadores. Enviado especial em missão panos quentes ao Vaticano, o secretário de Estado (católico) Marco Rubio foi recebido em audiência por Leão XIV na quinta-feira 7, na qual, segundo o governo americano, travaram conversas “amistosas em prol da paz” no Oriente Médio e celebraram as “relações sólidas” entre os Estados Unidos e a Santa Sé. Pelo jeito, não combinou muito bem com o chefe, que na véspera da viagem havia voltado à carga.“O papa está colocando muitos católicos em perigo. Ele acha normal o Irã ter uma arma nuclear”, acusou Trump, em outra interpretação nada rigorosa da realidade.

SEM GRAÇA - Como pontífice: brincadeirinha de quem se acha o melhor candidato a tudo
SEM GRAÇA - Como pontífice: brincadeirinha de quem se acha o melhor candidato a tudo (Truth Social @REALDONALDTRUMP/.)

Ao longo do primeiro ano de papado, Robert Prevost, 70 anos, o cardeal escolhido em conclave para liderar a Igreja Católica, proferiu discursos fincados no humanismo e fundamentados nas Escrituras, para reconduzir a Igreja, com delicadeza, a um caminho mais tradicional. Voltou às vestes ornamentadas, rezou missas em latim e escolheu residir nos aposentos papais do Palácio Apostólico, atitudes que, embora não rompam com o legado de Francisco, agradaram aos conservadores que miravam com desconfiança o antecessor, afeito a reformular rituais sagrados. A pregação pacifista seria também esperada, não tivesse Prevost decidido subir o tom ao disparar que Deus “não ouve as orações daqueles que fazem guerra” e tachar de “inaceitável” a ameaça do presidente americano de acabar com a civilização iraniana. A certa altura, citou-o pelo nome: “Não temo o governo Trump”, afirmou a jornalistas.

A disposição do papa de mexer neste vespeiro tem a ver, segundo analistas, com sua necessidade, diferentemente de todos os antecessores, de se distanciar do fato de ter nascido nos Estados Unidos (“Só foi escolhido por ser americano, a Igreja achou que essa seria a melhor maneira de lidar comigo”, cutucou Trump) e se manter neutro nesta era de polarização. “Ele não quer que, como americano, seu papado seja moldado por Trump. Quando foi necessário se posicionar, encontrou sua voz. Estamos começando a entender quem é Leão”, diz o teólogo Massimo Faggioli, da Trinity College, em Dublin. Conhecido como o “pastor de duas pátrias”, tendo dividido a carreira entre Chicago, nos Estados Unidos, e a prelazia de Chiclayo, no Peru, Leão XIV adquiriu uma visão abrangente de pontos de vista diversos nas viagens pelo mundo. Tornou-se operador político ágil e bem informado e vinha usando a discrição a seu favor para ecoar a mensagem unificadora.

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TENSÃO - Ataque iraniano nos Emirados Árabes: um princípio de acordo pode estar a caminho
TENSÃO - Ataque iraniano nos Emirados Árabes: um princípio de acordo pode estar a caminho (Fadel Senna/AFP)

A saraivada de insultos de Trump mudou o cenário, até o momento com aparente vantagem para o pontífice. “Leão ganhou margem de manobra ao decidir que seria o adulto na sala. A briga só reforçou o contraste: de um lado, um pontífice calmo e pacifista, do outro, um presidente com retórica virulenta”, disse a VEJA Chris­topher White, autor do livro Papa Leão XIV: Por Dentro do Conclave, o Alvorecer de um Novo Papado. No último mês, inclusive, ele ampliou as fronteiras de sua linguagem mais incisiva. Durante uma turnê pela África, continente onde mais cresce o rebanho de 1,4 bilhão de católicos, pediu “uma sociedade civil dinâmica e livre” na Argélia, dominada por um regime autoritário, e, citando Santo Agostinho, disse que governantes “servem aos que eles pensam comandar” — recado ao mais longevo autocrata do mundo, Paul Biya, no poder em Camarões há 44 anos. Lá também, aliás, aproveitou para alfinetar uns e outros: “O mundo está sendo devastado por um punhado de tiranos” que gastam bilhões com guerras em vez de saúde e educação, pontificou.

Não é nada incomum que papas estendam o manto espiritual para abarcar questões políticas. É atribuída a uma visita do notoriamente anticomunista João Paulo II a sua terra natal, a Polônia, a fagulha que acendeu em 1979 o movimento pró-democracia e provocou um efeito dominó em outros governos na esfera da União Soviética que culminou na queda do Muro de Berlim. Antes dele, Pio XI, que ascendeu à Santa Sé pouco depois da Revolução Russa, condenou veementemente a “perversidade” do comunismo. Incomodado, Josef Stalin ironizaria, em frase que atravessou décadas, mesmo que ninguém a tivesse gravado ou ouvido: “Quantas divisões tem o papa?”. João XXIII, em sua saga modernizadora, abriu espaço para a Teologia da Libertação. “Papas não expressam opiniões pessoais e, sim, ensinamentos da Igreja. E a instituição entende que deve posicionar-se sobre temas da moralidade humana”, diz Michele Dillon, socióloga da Universidade de New Hampshire.

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A relação dos americanos com a Igreja Católica começou pautada pela animosidade. Os chamados Pais Fundadores da república, protestantes, viam o Vaticano com enorme reserva. A rixa se arrefeceu e, em 1960, o católico John Kennedy foi eleito presidente mesmo com os adversários pregando que ele se submeteria ao papa em detrimento dos interesses americanos. Nunca, porém, um ocupante da Casa Branca tratou o líder da Cúria Romana com tanta hostilidade e, não satisfeito, estendeu a provocação à cristandade em geral ao postar uma imagem, criada com inteligência artificial, de um Trump com ares de Jesus Cristo, imediatamente rejeitada como blasfêmia por diversas denominações. Mais de 80% dos evangélicos brancos e quase 60% dos católicos votaram em Trump em 2024, e posar envolto em luz divina foi demais até para esse público, que sempre tolerou a religiosidade difusa do presidente em troca da defesa de pautas que lhes são caras, como a proibição do aborto.

MISSÃO POLÍTICA - João Paulo II: o polonês contribuiu para a derrocada do comunismo
MISSÃO POLÍTICA – João Paulo II: o polonês contribuiu para a derrocada do comunismo (Derrick Ceyrac/AFP)

A ida de Rubio ao Vaticano tem o objetivo de reparar o dano, em um momento de baixa popularidade do governo. O custo eleitoral do comportamento de Trump poderá ser sentido em novembro, nas eleições de meio de mandato, que definirão a maioria na Câmara e no Senado. Católicos brancos têm peso desproporcional em estados-pêndulo como Wisconsin, Pensilvânia e o vermelhíssimo Texas, e uma pesquisa Pew registrou apenas 52% de aprovação de Trump nesse segmento (23% entre católicos latinos).

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Ponto mais sensível ainda na desaprovação do eleitorado: a guerra no Oriente Médio que o papa condena segue indefinida. Após dias de alta tensão devido ao fechamento do nevrálgico Estreito de Ormuz, em meio a um vaivém de ameaças e ataques renovados do Irã contra uma refinaria dos Emirados Árabes na costa do Golfo de Omã, Trump suspendeu, na noite da terça-feira 5, uma operação militar para escoltar navios que colocou a Marinha americana em rota de colisão com a Guarda Revolucionária Islâmica. O objetivo: “dar espaço” às negociações. Mais de 60% dos eleitores são contrários ao conflito, e a chance de que seja encerrado logo ressurgiu quando se deixou vazar que Irã e EUA poderiam anunciar um memorando com muitos pontos sem nó, mas que abriria Ormuz e acabaria com ataques de lado a lado. Seria também o fim do embate de Trump e Leão XIV — não fosse o presidente um ser nascido para retrucar e não tivesse o papa outras desavenças com a Casa Branca na questão da política anti-imigração, que já chamou de “desumana”, “moralmente indefensável” e “extremamente desrespeitosa”. Mais sermões virão por aí. Leão XIV ruge.

Publicado em VEJA de 8 de maio de 2026, edição nº 2994



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