Como já é de percepção geral, a política da extrema-direita adora uma narrativa de perseguição. Há meses, a direita e o centrão ensaiam um coro afinado contra o Supremo, reelegendo Alexandre de Moraes como o vilão de estimação e o símbolo de uma suposta “caça às bruxas”. Mas o escândalo do Banco Master e a operação contra Ciro Nogueira produziram um curto-circuito pedagógico nessa tese: a ordem de busca e apreensão no cacique do PP partiram da caneta de André Mendonça.
A ironia é de uma precisão cirúrgica. Ciro Nogueira, que agora espuma falando em “perseguição política” e “timing encomendado pelo governo”, esquece-se de um detalhe: o relator do seu caso é o ministro “terrivelmente evangélico” que ele mesmo carregou no colo durante a sabatina no Senado. Não foi o “Xandão”, não foi um indicado de Lula, foi a criatura política de Jair Bolsonaro quem olhou para as provas e colocou a roda de justiça para girar.
Mendonça matou no peito a narrativa da vitimização. Ao autorizar a operação, o ministro não apenas cumpriu seu papel, mas implodiu o discurso da direita de que o STF age apenas por revanchismo ideológico contra os aliados do ex-presidente. Se Mendonça viu indícios de crime na relação promíscua entre o senador e o banqueiro Vorcaro, o argumento da “perseguição” vira piada de salão.
Fica evidente que o desespero de Ciro é o desespero de quem perdeu o que acreditava ser, dentro de uma fantasia, um porto seguro. A indicação de Mendonça não é uma apólice de seguro contra investigações. Descobriu, com a PF na porta de casa, que não está acima de tudo e de todos – não é intocável. A direita, que tanto clama por justiça, agora padece de um mal terrível: ser julgada por um “dos seus”.