Alvo da Polícia Federal (PF) por suspeita de corrupção no escândalo do Banco Master, o senador Ciro Nogueira (PP-PI) será dono de uma mansão de 878 metros quadrados no Jardim Europa, um dos bairros mais luxuosos de São Paulo. Segundo o próprio parlamentar, quando o imóvel ficar pronto, ainda neste ano, deverá valer cerca de R$ 30 milhões.
O valor é impulsionado pelo projeto do renomado arquiteto Arthur Casas Mattos, premiado internacionalmente por construções em países como França, Japão e Estados Unidos, e no Brasil por projetos como o do Hotel Emiliano, do Rio de Janeiro.
Como revelou o Metrópoles neste domingo (10/5), a mansão foi trocada por uma cobertura triplex que Ciro Nogueira comprou por R$ 22 milhões em julho de 2024, 26 dias após apresentar a chamada “emenda Master” no Senado, que beneficiaria o banco de Daniel Vorcaro.
O imóvel está sendo adquirido por Ciro em negociação com o amigo Antônio Rocha Neto, empresário dos ramos de educação e transportes. O acordo estabelece que, em troca da mansão, o senador deve entregar o triplex, que fica na Rua Oscar Freire. O apartamento também está em fase final de construção e, segundo Ciro, também valerá em torno de R$ 30 milhões quando ficar pronto.
A mansão terá design modernista, com linhas retas e concreto aparente em tom bege, marcas registradas de Arthur Casas. Além de um estacionamento no subsolo, são quatro andares recheados de cômodos espaçosos, uma academia e até um SPA no último pavimento. A casa tem quatro quartos, sendo um deles a suíte master, com closet e vista para a piscina e um jardim de inverno.
O senador e sua companheira, Lorena Furtado, pediram uma série de alterações no projeto original, com o objetivo de adequá-lo às necessidades do casal. Uma das mudanças atendidas pela equipe de Arthur Casas foi a transformação do home theater, que estava previsto para o terceiro andar, em um luxuoso espaço para festas, com bar e mesa de DJ. A ideia seria usar o imóvel como uma “casa de negócios”.
No início de abril, o Metrópoles esteve no imóvel e apurou que a mansão deve ficar pronta no início do segundo semestre deste ano.
Triplex por mansão
A futura mansão de Ciro Nogueira foi construída pelo empresário Antônio Rocha Neto, de quem o senador diz ser amigo há mais de 20 anos. Rochinha, como é conhecido, comprou o terreno no Jardim Europa em julho de 2023 por R$ 6 milhões, contratou o Studio Arthur Casas para realizar o projeto e uma construtora para colocá-lo de pé.
Procurado pela reportagem, ele disse que pretendia morar no imóvel, mas mudou de ideia após sua família ser vítima de um assalto. “Decidi fazer a permuta com Ciro por esse motivo. A casa era para eu morar com a família. Mas depois desse assalto mudamos de ideia”, disse o empresário, sem revelar quanto gastou na construção.
Desde o início do ano, os arquitetos da mansão passaram a lidar com Ciro e Lorena, que propuseram mudanças na estrutura do imóvel. O casal foi informado que, como a maior parte da construção é de concreto maciço, isso não seria possível. Eles tiveram que se contentar com alterações no interior dos cômodos, como a substituição do home theater pelo espaço para festas.
Nos últimos meses, Lorena participou de uma série de reuniões no Studio Arthur Casas e fez visitas à obra para acompanhar o andamento da construção. A companheira de Ciro também tem ido a lojas de móveis para escolher os itens que vão preencher a futura propriedade.
Sociedade com Vorcaro
O triplex oferecido por Ciro Nogueira na troca pela mansão no Jardim Europa foi adquirido em julho de 2024, por R$ 22 milhões, três meses após o senador se tornar sócio do banqueiro Daniel Vorcaro e 26 dias antes de apresentar a chamada “emenda Master”, apontada pela Polícia Federal (PF) como um dos elos entre o parlamentar e o banco envolvido na fraude bilionária contra o sistema financeiro.
Na última quinta-feira (7/5), Ciro foi alvo de mandados de busca e apreensão na quinta fase da Operação Compliance Zero, por suspeita de atuar “em favor do banqueiro, em troca do recebimento de vantagens econômicas indevidas”.
Ao Metrópoles, o parlamentar disse que a compra do triplex por R$ 22 milhões ocorreu mediante a entrega de um apartamento no mesmo prédio, avaliado em R$ 8 milhões, e o restante em dinheiro, de forma parcelada. Segundo o senador, faltam ainda seis parcelas de R$ 336 mil e R$ 6,7 milhões na entrega das chaves.
“Todo o imóvel foi negociado com a construtora e pago 100% por minha empresa”, afirmou Ciro, referindo-se à CNLF Empreendimentos Imobiliários, empresa suspeita de ter sido usada por ele para receber pagamentos ilícitos do Master.
O imóvel entregue pelo senador na negociação, localizado no 1º andar, teria sido adquirido em 18 de janeiro de 2023, pouco após o início das obras do empreendimento. Ele afirma que, enquanto o imóvel era construído, chegou a discutir a possibilidade de trocá-lo por um outro apartamento do prédio, no 17º andar, mas acabou desistindo e depois fazendo a troca pelo triplex.
Ciro Nogueira afirmou que a compra do primeiro imóvel no prédio ocorreu muito antes de ele conhecer Daniel Vorcaro.
Mesada
De acordo com as investigações da Polícia Federal, a emenda apresentada por Ciro Nogueira em 13 de agosto de 2024, 26 dias após comprar o triplex, tinha como objetivo proteger as operações fraudulentas do Master. O texto, que teria sido redigido pela assessoria do próprio banco, previa quadriplicar o valor de cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC), de R$ 250 mil para R$ 1 milhão.
Ao representar pelos mandados da quinta fase da Compliance Zero, a PF cita uma mensagem em que Daniel Vorcaro afirma que a emenda “saiu exatamente como mandei”. Em troca, segundo a investigação, o senador do PP recebia uma mesada de R$ 300 mil a R$ 500 mil paga pelo banqueiro. O valor aparece em diálogos de Vorcaro com seu primo, Felipe Vorcaro, que foi preso na operação da última semana.
“Oi, é para continuar pagando a parceria BRGD/CNLF? 300k mes?”, pergunta Felipe em 25 de julho de 2024, dias após Ciro adquirir o triplex. “Sim”, responde Vorcaro. A PF diz que as mensagens são corroboradas por relatórios de inteligência do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), que confirmam as transferências.
Uma das empresas mencionadas por Felipe na mensagem, a CNLF, é apontada na investigação como uma holding patrimonial do senador. O CNPJ, que está no nome do irmão dele, Raimundo Nogueira Lima, foi o mesmo utilizado para adquirir o triplex na Oscar Freire e a mansão no Jardim Europa.
“Perseguição política”
Na última sexta-feira (8/5), Ciro Nogueira se manifestou pela primeira vez sobre a operação da Polícia Federal. Em nota publicada nas redes sociais, o parlamentar afirmou ser vítima de “perseguição política” e disse que tentam “manchar” sua honra pessoal em anos eleitorais.
“Todo ano político é a mesma coisa. Tentam parar de todas as formas quem lidera as pesquisas de intenção de votos”, escreveu o senador. Ciro também relembrou a eleição de 2018, quando, segundo ele, teria sido alvo de acusações semelhantes. “O povo do Piauí sentiu a perseguição política e o efeito foi contrário”, afirmou.













