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Ao ser eleito no auge do bolsonarismo para seu primeiro mandato como deputado federal, em 2018, Eduardo Bolsonaro cravou aquele que é o recorde até hoje para um candidato à Câmara na história do país, com mais de 1,8 milhão de votos. Em 2022, viu a votação despencar para 741 000, o que não o impediu de ser uma das vozes mais estridentes na oposição ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Congresso. O prestígio na direita mais radical o credenciou a postular a candidatura ao Senado na eleição deste ano, o que parecia uma coisa certa, dado o favoritismo apontado pelas pesquisas. Tudo mudou a partir de março de 2025, quando decidiu se autoexilar nos Estados Unidos, de onde empreendeu uma campanha para pressionar autoridades, em especial ministros do STF, na tentativa de impedir a condenação do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, por tentativa de golpe de Estado — o que não conseguiu. Virou réu no mesmo Supremo por obstrução de justiça, perdeu o mandato na Câmara por excesso de faltas e passou a ser dado como carta fora do baralho. O que parecia uma derrocada sem volta, porém, ganhou nos últimos dias novos capítulos, que prometem uma reviravolta não apenas para Eduardo, mas para a direita brasileira.

QUARTETO - Prado, Tarcísio, Flávio e Derrite: chapa consolidada em São Paulo
QUARTETO - Prado, Tarcísio, Flávio e Derrite: chapa consolidada em São Paulo (@tarcisiogdf/Instagram)

A volta ao tabuleiro eleitoral veio com uma estratégia ousada. Na terça-feira 5, Eduardo anunciou que será o primeiro suplente na chapa ao Senado encabeçada pelo deputado estadual André do Prado (PL) — o outro postulante no bloco da direita será o ex-secretário da Segurança Pública paulista Guilherme Derrite (PP). Presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo, Prado é um aliado do cacique do PL, Valdemar Costa Neto, e do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos). O plano, não confessado em público, é fazer do filho Zero Três de Jair Bolsonaro um senador a partir de 2027, com a nomeação de André do Prado para uma secretaria em São Paulo (caso Tarcísio seja reeleito) ou para ministro (caso Flávio Bolsonaro seja eleito presidente), hipóteses hoje nem um pouco remotas.

Como tudo que envolve Eduardo e o clã Bolsonaro, a estratégia não será tocada sem muito ruído. A começar pelos bastidores do PL, que ferviam quando o assunto era tratado. O desfecho desagradou a muita gente, que acha que Prado seria um nome muito mais ligado a Valdemar e ao Centrão do que ao bolsonarismo ideológico. No meio do caminho, ficaram o vice-­prefeito de São Paulo, Mello Araújo (PL), apadrinhado por Jair Bolsonaro, o deputado estadual Gil Diniz (do PL-SP e amigo de Eduardo) e o deputado Mario Frias (PL-SP), que sempre foi fiel à família — só neste ano, ele foi duas vezes aos EUA para encontrar Eduardo. Também não se pode dizer que estejam contentes a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, que tentou emplacar a deputada federal Rosana Valle, do PL Mulher, e o deputado federal Marco Feliciano (PL-SP), que tem grande influência entre os evangélicos.

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No vídeo em que anunciou a decisão, Eduardo disse que era tudo uma questão de estratégia. Segundo ele, Prado tem experiência (foi vereador, prefeito e deputado) e mostrou capacidade “real de articulação e liderança política” como presidente da Alesp ao aprovar todas as matérias que pautou, e enfatizou que São Paulo precisa ter um palanque forte para Flávio. “Gostaria muito de estar no Brasil, mas, no nosso projeto atual, André do Prado se encaixa perfeitamente. Vai ser a união de várias forças, para bem nos representar, principalmente nas pautas que são inegociáveis para nós, que vocês bem sabem, que é a liberdade”, disse.

Um problema que já se desenha para Eduardo é provar que pode alavancar o neoaliado. Segundo pesquisa Genial/Quaest, os candidatos da direita patinam em posições abaixo do trio de potenciais apoiados por Lula no estado — Simone Tebet, Marina Silva e Márcio França (veja o quadro). Nenhum nome de direita tem por ora dois dígitos, embora quase metade do eleitorado ainda não tenha definido um candidato ao Senado. Pouco antes de ir para os EUA, Eduardo pontuava cerca de 30% nas pesquisas, mas sua imagem pode ter se desgastado com a atuação para impor sanções ao Brasil e ao STF. Na época da aplicação do tarifaço por Donald Trump, atribuído em parte a seu trabalho e de seus aliados, a maioria da população desaprovou a medida, o que ajudou inclusive a alavancar a popularidade de Lula. “O Eduardo tem completo potencial para transferir votos, entre 30% e 35% é voto certo para a candidatura dele”, acredita Valdemar, acrescentando que a base grande de Prado junto a deputados estaduais e prefeitos também será essencial.

FORA - Feliciano com Carlos Bolsonaro em SC: proximidade com o clã não lhe garantiu a vaga
FORA - Feliciano com Carlos Bolsonaro em SC: proximidade com o clã não lhe garantiu a vaga (@carlosbolsonaro/Instagram)
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Há dúvidas sobre se a direita marchará unida. Um dos concorrentes, o ex-ministro bolsonarista Ricardo Salles, agora no Novo, disparou contra a estratégia de Eduardo. “Não me vendo para o Centrão, não negocio com gente corrupta, fisiológica. O Centrão é pior que a esquerda, porque finge que é direita, quando convém, e depois vota com a esquerda”, afirma. Dentro do PL, a dúvida é se alguém vai questionar publicamente a estratégia. Por ora, não parece. “Acima de tudo, Eduardo é o cara dessa vaga. E tudo na política é uma questão de ocupação de espaço. A direita está se definindo, não se dividindo”, diz Frias.

Outro potencial foco de encrenca está no Judiciário. Primeiro, haverá discussão sobre a sua elegibilidade. A lei diz que, quando houver quebra de decoro e um deputado for cassado pela maioria absoluta da Casa, ele fica inelegível por oito anos. Eduardo, porém, perdeu o mandato por faltas e não passou pelo escrutínio dos colegas — uma canetada do presidente Hugo Motta (Republicanos-PB) o tornou ex-deputado. A lei não diz, de forma expressa, o que fazer em situações como a dele e, por isso, em regra ele está elegível e apto a ser candidato, o que não significa que não vai ser alvo de questionamentos na Justiça. “Não é uma mera cassação por faltas de uma pessoa que, por exemplo, ficou doente. Pode-se interpretar que as faltas dele decorrem de uma tentativa de se evadir da Justiça”, argumenta Fernando Neisser, advogado e professor de direito eleitoral da FGV/SP. Sem precedentes na Justiça, o caso de Eduardo, quase certamente, vai parar no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que, a partir de 12 de maio, terá Nunes Marques como presidente e André Mendonça como vice, ambos tornados ministros por Jair Bolsonaro.

CONFORMADO - Mario Frias: preterido, ele diz que a “direita está se definindo, não se dividindo”
CONFORMADO - Mario Frias: preterido, ele diz que a “direita está se definindo, não se dividindo” (Kayo Magalhães/Câmara dos Deputados)
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Além disso, há a preocupação do PL com os enroscos de Eduardo com a Justiça. No STF, o Zero Três responde por coação no curso do processo (sobre a tentativa de influir no julgamento do pai). A ação já está em fase de alegações finais, mas tem uma pena máxima baixa, que dificilmente o levaria a um regime fechado. Esse ponto, inclusive, levou o PL a pedir formalmente informações ao TSE sobre a viabilidade da candidatura. “Queremos saber da Justiça Eleitoral os efeitos desse processo na candidatura”, diz Valdemar. Eduardo também é alvo dos inquéritos das fake news e das milícias digitais, que ainda não têm uma perspectiva de desfecho, e de várias queixas-crimes, com possibilidade pequena de levá-lo à prisão. Também é difícil prender preventivamente Eduardo caso volte ao Brasil, como se cogitava na época do tarifaço e da aplicação da Lei Magnitsky pelos EUA contra Alexandre de Moraes. “A questão é a contemporaneidade. O risco, para motivar a prisão, tem que existir agora”, diz Juliana Bertholdi, advogada e professora da PUCPR.

PAUTA - Nunes Marques e Mendonça: TSE terá que discutir inelegibilidade
PAUTA - Nunes Marques e Mendonça: TSE terá que discutir inelegibilidade (Alejandro Zambrana/Secom/TSE)

Desde que foi para os Estados Unidos, é certo que Eduardo nunca parou de fazer política. Mobilizou aliados trumpistas nos EUA e foi presença constante nas redes sociais brasileiras, onde permanece como voz ativa na militância bolsonarista. Acumulou derrotas (como ao ver o aliado Trump se aproximar de Lula), mas nunca deixou de fazer barulho e de tentar influir nas eleições e nos rumos da direita. Agora, mostra que não vai desistir tão cedo de chegar ao Senado, mesmo que seja pela via indireta, por meio da “tacada de mestre” que tenta emplacar no jogo eleitoral.

Publicado em VEJA de 8 de maio de 2026, edição nº 2994



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