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Iniciada nos últimos dias de fevereiro, a guerra envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã virou de cabeça para baixo o mercado global de energia, com o barril do petróleo acumulando alta superior a 50% desde então. O choque recolocou a commodity no centro das tensões internacionais e elevou de forma abrupta a volatilidade dos preços. Em meio a esse cenário turbulento, a reorganização do setor ganhou um novo capítulo no último dia 28, quando os Emirados Árabes Unidos anunciaram sua saída da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep). O movimento marca um cisma histórico dentro do cartel, criado para controlar a oferta e sustentar os preços do produto em patamares elevados. Mais do que um episódio isolado, a decisão expõe o enfraquecimento de uma entidade incapaz de agir de forma coesa diante de interesses divergentes e pressões externas, num momento em que a geopolítica entrou em ebulição. Diante da multiplicação de conflitos armados, sanções e disputas políticas pelo mundo afora, torna-se cada vez mais difícil prever a dinâmica de oferta e demanda no setor petrolífero. Com a crise dos últimos meses, a Opep enfrenta dificuldade para justificar sua própria existência.
O anúncio da saída dos Emirados foi recebido, em um primeiro momento, com cautela pelos mercados internacionais. “Os impactos do racha na Opep ainda são difíceis de prever”, afirma Michael Brown, estrategista da corretora de valores australiana Pepperstone. Os preços do petróleo chegaram a perder força logo após a notícia, diante da perspectiva de aumento de oferta no futuro. Mas rapidamente retomaram a trajetória de alta, impulsionados pelo temor de escalada das hostilidades contra Teerã. O barril do Brent chegou a operar perto dos 110 dólares — sustentado pelas restrições no Estreito de Ormuz e pela incerteza sobre o conflito. Na quarta-feira 6, a promessa de reabertura da rota marítima trouxe algum alívio, mas não foi suficiente para dissipar a tensão nos mercados. Analistas destacam que o impacto imediato é limitado, já que a capacidade de exportação da região segue reduzida. De certa forma, a montanha-russa de preços escancarou as limitações da Opep. O cartel , afinal, assiste à volatilidade do petróleo sem conseguir influenciá-la. Esse declínio está expresso em números. Em abril, a produção do grupo caiu para o menor nível em quase quarenta anos.
A saída dos Emirados Árabes da Opep reflete, acima de tudo, um cálculo econômico: eles querem produzir mais e monetizar suas reservas enquanto ainda há demanda por petróleo. Com o mercado ainda aquecido e a transição energética rumo a fontes renováveis, adiar a exploração significaria abrir mão de valores vultosos. Assim, os Emirados, que hoje produzem 3,6 milhões de barris por dia, investem pesado na expansão de poços para elevar sua capacidade em 40%. Dentro da Opep, porém, esse avanço esbarrava em cotas rígidas que limitavam a produção e, na prática, impediam a expansão das receitas. Para agravar o quadro, a lógica dos Emirados colide com a do principal membro do cartel, a Arábia Saudita. Como a operação dos campos sauditas é custosa, o reino controlado por Mohammed bin Salman precisa vender o produto a preços elevados, na casa dos 90 dólares, para ter lucro e bancar a perdulária elite de Riad. Como resultado, Bin Salman é um fervoroso defensor de restrições. “Livres das amarras do cartel, os Emirados Árabes colocam em risco o papel da Arábia Saudita como principal reguladora dos preços”, afirma Jorge León, da consultoria norueguesa Rystad Energy.

Para seguir tendo alguma relevância, a Opep depende de um mecanismo relativamente simples, mas difícil de sustentar: seus membros concordam em limitar a produção para controlar os preços globais do petróleo. Na prática, porém, esse sistema vem sendo corroído por interesses nacionais cada vez mais divergentes. Países com maior capacidade de expansão veem pouco sentido em segurar investimentos e frear a produção. Há também aqueles que dependem de receita imediata para bancar gastos públicos e que, frequentemente, acabam descumprindo as cotas estabelecidas.

O histórico recente mostra que a deserção não é inédita: o Catar deixou a Opep em 2019, enquanto Equador (2020), Indonésia (suspensa em 2016) e Angola (2023) também se afastaram do grupo em meio a divergências sobre cotas e estratégias. O resultado é um arranjo que exige disciplina coletiva, mas opera em ambiente de baixa confiança e objetivos divergentes, em que cada membro prioriza seus próprios interesses. Nesse contexto, a saída dos Emirados deixa de ser um ponto fora da curva e passa a ser sintoma de um modelo de gestão que dá sinais claros de esgotamento. “A coesão do grupo será testada como nunca antes”, diz Francisco Blanch, especialista em commodities do americano Bank of America.
A decisão é também um aceno dos xeiques dos Emirados Árabes aos Estados Unidos, num momento em que a política energética americana volta a ganhar protagonismo no governo Donald Trump. Crítico notório da Opep, o republicano defende a ampliação da oferta global de petróleo para conter preços e aliviar pressões inflacionárias. Sua estratégia, sintetizada no lema “drill, baby, drill” (“perfure, baby, perfure”), prioriza a expansão da produção doméstica e de aliados como instrumento de segurança energética e de maior influência sobre o mercado global. Nesse contexto, a saída dos Emirados não é apenas um movimento ancorado em razões econômicas, mas também um gesto alinhado aos interesses do comandante da Casa Branca. Não por coincidência, a relação entre Abu Dhabi, capital dos Emirados, e Washington vem se estreitando em outras frentes, como tecnologia, investimentos e segurança. Isso reforça a leitura de que a decisão do ditador dos Emirados, Mohamed bin Zayed, vai além do campo comercial e integra um alinhamento mais amplo com a administração americana. “Foi uma atitude muito inteligente da parte dele”, disse Trump, sobre a saída dos Emirados. “O país quer seguir seu próprio caminho.”

Fundada em 1960 por Irã, Iraque, Kuwait, Arábia Saudita e Venezuela, a Opep nasceu com o objetivo de coordenar a produção e defender os interesses dos grandes exportadores diante das potências consumidoras. Ao longo da década seguinte, o grupo ganhou musculatura e passou a exercer influência crescente sobre o mercado global de energia, chegando a controlar mais de 50% da produção mundial. O auge desse poder veio em 1973, durante a Guerra do Yom Kippur, quando países árabes do cartel decidiram cortar a produção e impor um embargo às nações que apoiavam Israel, lideradas pelos Estados Unidos. O efeito foi devastador. O preço do petróleo mais que dobrou em poucos meses, desencadeando uma crise sem precedentes no pós-guerra. Filas quilométricas em postos, racionamento e medidas emergenciais tornaram-se rotina, enquanto a inflação disparava. Nos bastidores, Henry Kissinger, então secretário de Estado dos Estados Unidos, liderou uma ofensiva diplomática para restabelecer o fluxo da commodity, evidenciando o peso crescente da energia na política internacional. O episódio consolidou a Opep como um ator capaz de provocar abalos profundos na ordem global, ao transformar a oferta de petróleo em instrumento de poder. Esse nível de influência foi se diluindo nos últimos anos, e o movimento dos Emirados Árabes pode marcar de vez o declínio do cartel do petróleo enquanto um dos protagonistas da geopolítica mundial.
Publicado em VEJA de 8 de maio de 2026, edição nº 2994

