O setor elétrico brasileiro enfrenta hoje uma distorção relevante: preços elevados de energia em um contexto de oferta confortável. Reservatórios em níveis adequados e expansão acelerada de fontes renováveis convivem com um sinal de preço que não reflete a realidade operacional do sistema. Essa desconexão não é apenas técnica. Ela já produz efeitos concretos na economia, reduzindo previsibilidade para investimentos e pressionando custos da indústria.

A questão central não está na oferta de energia, uma vez que o preço de energia no país é determinado por um modelo matemático teórico. O modelo atual incorpora um nível de aversão ao risco de escassez hídrica excessivamente elevado.

O peso da aversão ao risco (CVAR)

Um dos principais fatores por trás desse comportamento é o parâmetro de aversão ao risco, o CVaR (Conditional Value at Risk), que orienta as decisões dos modelos computacionais.

Na configuração vigente, o modelo atribui peso elevado aos cenários mais críticos de hidrologia. Na prática, isso leva a um despacho mais conservador e à definição de preços mais altos, mesmo quando não há risco concreto de desabastecimento.

O efeito é semelhante ao de um sistema que opera permanentemente em modo de contingência. Como um motorista que reduz drasticamente a velocidade em uma estrada segura, o sistema paga um custo elevado por um risco que não se materializa.

Distorções adicionais no modelo

Além da aversão ao risco, mudanças recentes de premissas vêm gerando inconsistências que elevam o preço e ampliam o descolamento da realidade. Reduções no despacho térmico, que deveriam reduzir o custo, têm provocado aumento de preços em determinadas semanas, enquanto a inclusão no modelo de uma usina hídrica de pequeno porte prevista para entrar no longo prazo, que deveria ter impacto marginal, vem elevando os preços de forma relevante.

Soma-se a isso a falta de convergência do modelo computacional, que gera incerteza recorrente sobre o resultado do PLD, além de fragilidades na governança e na qualidade dos dados de entrada.

Casos recentes ilustram esse descolamento. A consideração, no modelo, de uma usina hídrica de menos de 50 MW prevista para 2030 tem gerado impactos imediatos no preço atual, com variações de até R$ 80/MWh.

Esse tipo de distorção evidencia limitações relevantes na forma como o modelo projeta o futuro e incorpora essas premissas, resultando em um ambiente menos previsível e mais volátil, com impactos diretos sobre o PLD (Preço de Liquidação das Diferenças).

Impacto no mercado livre e na economia

No Mercado Livre de Energia, que responde por 95% do consumo industrial brasileiro, o efeito é direto: redução da liquidez, menor oferta de contratos de longo prazo e aumento no custo de energia

Esse cenário compromete o principal objetivo do mercado: permitir que empresas gerenciem seus custos de energia com previsibilidade e competitividade. Quando o sinal de preço perde aderência à realidade, ele deixa de cumprir seu papel econômico.

A solução de curto prazo: ajuste de parâmetros

Apesar da complexidade do tema, há medidas concretas que podem ser adotadas no curto prazo. O modelo prevê revisões periódicas desses parâmetros, e o Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE) possui competência para realizá-las.

Uma alternativa é a adoção do parâmetro CVaR (15,30), em substituição ao (15,40) vigente. Simulações indicam que a recalibração do nível de aversão ao risco pode reduzir os preços de energia em mais de 30%, sem comprometer a segurança do sistema — um impacto relevante em um mercado que movimenta bilhões de reais por ano.

De forma simplificada, esse parâmetro define quanto peso o modelo atribui aos cenários mais extremos de escassez hídrica. Hoje, esse peso é mais elevado do que deveria, o que torna o modelo mais conservador e encarece a energia. A proposta do (15,30) reduz esse nível de conservadorismo, mantendo a segurança do sistema, mas com menor custo.

Análises mostram que esse modelo preserva os níveis dos reservatórios mesmo em cenários críticos e adversos.

Nos últimos anos, praticamente todas as alterações feitas no modelo de precificação caminharam no sentido de aumentar a aversão ao risco do sistema. A intenção é legítima. O problema é o custo. Proteções empilhadas começam a custar mais do que o próprio risco que pretendem mitigar. É como pagar um seguro mais caro do que o bem protegido.

Por um debate além do técnico 

A formação de preços de energia não é apenas um tema técnico. Ela influencia diretamente a competitividade da economia brasileira. Energia mais cara reduz margens, desestimula investimentos e pressiona preços ao consumidor final, gerando inflação.

O Brasil reúne condições únicas: uma matriz majoritariamente renovável, crescente diversificação de fontes e um mercado livre em expansão. Transformar essa vantagem em custo elevado por desalinhamento regulatório é um risco evitável.

O debate sobre o modelo de preços precisa avançar com base em dados e evidências.

O desafio não é reduzir segurança, mas calibrar o equilíbrio entre risco e custo. Desde sua criação, o ONS tem por objetivo otimizar a operação do sistema com o menor custo possível. A legislação recente também reforça a busca por modicidade tarifária e segurança energética.

É necessário resgatar esse equilíbrio. O sistema já dispõe de mecanismos para isso. A decisão está ao alcance da governança setorial. E o momento de agir é agora.

* Clarissa Sadock é CEO da Comerc Energia. 

Os artigos publicados pelo CNN Infra buscam estimular o debate, a reflexão e dar luz a visões sobre os principais desafios, problemas e soluções enfrentados pelo Brasil e por outros países do mundo. Os textos publicados neste espaço não refletem, necessariamente, a opinião da CNN Brasil.



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