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Durante milênios, neandertais e Homo sapiens travaram intenso duelo por recursos e território. Eram espécies semelhantes, caracterizadas pelo crânio grande, pelo uso do fogo e de ferramentas de pedra e pela prática de rituais como o sepultamento. A comunidade científica já levantou variadas hipóteses para explicar a vitória dos humanos em sua exaustiva marcha rumo à sobrevivência, uns 40 000 anos atrás. Uma das mais robustas recai sobre uma capacidade que sabidamente fez toda a diferença: o desenvolvimento da linguagem. Enquanto o grupo que acabou varrido do globo empregava um vocabulário voltado para o que era mais concreto e imediato, a turma que prevaleceu conseguia articular conhecimentos distintos, um grau de abstração que lhes permitia expressar-se de forma avançada, colocando na roda conceitos de elevada complexidade. Assim, à base de um boca a boca sofisticado, criaram redes de cooperação de larga escala e, aos poucos, fincaram pilares de uma civilização que vingou.
Os saltos tecnológicos, cada vez mais acelerados, fizeram com que, em belo momento, o exercício da fala, tão natural e necessário, fosse em parte substituído por interações bem mais silenciosas, tudo impulsionado pelo advento da internet. E dá-lhe mensagens escritas em texto brevíssimo para dar cabo de operações do dia a dia, da compra de um item on-line à vida social nas redes. Qualquer Homo sapiens moderno percebe o fenômeno, ao qual agora uma vasta pesquisa das universidades americanas do Missouri e do Arizona lança luz, chamando atenção para um dado inédito: o número de palavras pronunciadas por integrantes da espécie vem gradativamente caindo. E não é pouco, não. Em uma década e meia, de 16 632 vocábulos a humanidade passou a dar voz a 11 900 por dia — uma drástica redução de 28%. “O resultado foi uma surpresa. Inicialmente, pensamos que havíamos até cometido um erro, tamanha a queda detectada”, disse a VEJA a psicóloga Valeria Pfeifer, uma das autoras do estudo.
O resultado, que emergiu do acompanhamento por áudio de 2 200 indivíduos em ação, observou tal padrão da infância à velhice, reforçando que este é um traço próprio do caldo contemporâneo. Mas, como já esperado, ele se faz mais visível entre representantes das novas gerações — se o pessoal maduro deixa de falar 314 palavras por dia a cada ano que passa, a juventude vem subtraindo 451, um declínio 30% mais acentuado. Não chega a espantar diante da conhecida imersão dessa fatia da população no universo virtual, onde um naco expressivo da rotina se desenrola silenciosa, embalada por símbolos e abreviações. Um dos motores de tal movimento é a maciça adesão ao trabalho remoto, situação que aflorou na pandemia e nunca mais saiu de cena, uma mudança que rareou aquele bom papo de corredor. “Mesmo com reuniões por vídeo, fico tanto tempo sem falar com ninguém que esqueço até o som da minha voz”, diz a publicitária Helena Monteiro Sofia, 26 anos, que sente falta do corpo a corpo presencial.

O hábito de falar menos deságua em uma escrita também mais enxuta, tudo sob a moldura de uma sociedade cuja janela de atenção se estreita. E é em meio à impaciência moderna que viceja o risco de linha cruzada. “A escrita não envolve entonação, qualidade de voz, expressões faciais e tantos outros recursos que usamos para transmitir o que queremos dizer, aumentando a chance de mal-entendidos”, alerta a linguista Deborah Tannen, da Universidade de Georgetown. A troca da fala por textos velozes ainda embute, aos olhos dos pesquisadores da palavra, um afã por controlar o impacto do conteúdo no interlocutor. “Ao escrever, tentamos controlar aquilo que transmitimos, priorizando nosso ideal de perfeição. Mas é a fala que permite a novidade e até uma verdade às vezes desconhecida para o próprio sujeito que a enuncia”, afirma a psicanalista Ana Paula Gomes.
Sob o ângulo da neurociência, falar menos contribui para dar uma emperrada nas engrenagens do cérebro, o que pode cobrar seu preço. Poucas operações cognitivas, afinal, exigem tanto do sistema nervoso quanto uma resposta a alguém em tempo real. Em 200 milissegundos, menos que um piscar de olhos, é preciso decodificar o que foi dito, capturar o tom, processar a intenção, responder e (ufa!) apresentar uma reação física. Toda essa sequência mobiliza diferentes regiões na mente. “Ao diminuir a quantidade de palavras que usamos, limitamos o banco de dados do cérebro, o que leva a um empobrecimento da linguagem no longo prazo”, explica o neurocirurgião Kleber Duarte. É algo a ser combatido. Está comprovado que um maior repertório linguístico retarda o aparecimento de doenças como Alzheimer e Parkinson. Enquanto o hábito da conversa tête-à-tête impulsiona o bem-estar e espanta a solidão, o excesso de conectividade muitas vezes termina em laços frouxos que nada adicionam.
Nos primeiros anos de vida, aqueles que sedimentam a base para o desenvolvimento até a fase adulta, o incentivo à fala se faz mais necessário do que nunca. Por isso, pesquisadores da Universidade do Texas divulgaram o resultado de um recente estudo com ares de preocupação: mães que seguravam o filho com uma mão e o celular com a outra lhes dedicavam cerca de 20% menos palavras, o que pode ser decisivo para o vocabulário do ser em formação e tudo o que deriva daí. Mas calma que tem remédio, e ele não repousa em nenhuma prateleira inalcançável. “Se cada um de nós falasse com uma pessoa a mais por dia, poderíamos reverter essa tendência”, avalia a professora Valeria Pfeifer. Falar, sim, é preciso, mas não custa revisitar vocábulos muito bem pronunciados pelo grego Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.), que se desvia da questão da quantidade para derramar atenção na qualidade do discurso: “O sábio nunca diz tudo o que pensa, mas sempre pensa tudo o que diz”. Nada mais providencial nesta era em que tantas palavras são jogadas ao léu.
Publicado em VEJA de 8 de maio de 2026, edição nº 2994