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Em 1953, o Brasil criou a Petrobras com o propósito de buscar petróleo escondido nas profundezas do solo, até mesmo sob o mar. A empresa é hoje um dos maiores exemplos mundiais de sucesso na descoberta, extração, refino, transporte e distribuição de óleo e seus derivados. Transformou em riqueza o tesouro negro escondido sob a forma de lama subterrânea. Agora, defende-se a criação da Terrabras, para explorar os minerais usados nos produtos da nova economia de alta tecnologia.
Tudo muito bom, mas há um outro modo de enxergar o plano. Pode-se estimar que, nestes setenta anos, desde a faísca da Petrobras, nasceram no Brasil mais de 100 milhões de brasileiros, mas o país não se preocupou em criar um sistema educacional que permitisse aproveitar o formidável recurso do cérebro de cada um deles, sem o qual o petróleo continua lama e as terras-raras, apenas areia. Não é necessário, a rigor, perfurar o solo nem o fundo do mar. É preciso apenas dar aos cidadãos educação para que possam ser plenamente aproveitados. Os resultados seriam óbvios: eficiência econômica, justiça social, garantia de soberania e democracia consolidada. Mesmo assim, o Brasil se nega à ideia de um sistema nacional de qualidade e equidade.
“O Brasil se nega à ideia de um sistema nacional de qualidade e equidade”
Não se aceitaria a ideia de uma Petrobras pulverizada por município, PetroCampos, PetroMaricá, PetroRio e outros, nem que a exploração das terras-raras seja deixada para cada município onde elas estejam; mas aceita-se que a educação de cada criança seja tarefa de sua família ou seu município, porque os cérebros não são vistos como um recurso econômico do Brasil. Cada criança é vista como um problema: mais uma boca para alimentar, um corpo a vestir, uma pessoa a empregar — não um cérebro a mais para criar e produzir. Não se considera que os recursos naturais só se tornam econômicos graças à técnica e à ciência decorrentes do conhecimento produzido por cérebros educados. O petróleo só é aproveitado se houver um conjunto de cérebros formados para saber como localizá-lo, extraí-lo e transformá-lo em combustível. O aproveitamento de cada mina de terra depende do aproveitamento da mina do saber.
Isso é ainda mais óbvio no caso das terras-raras, porque seu uso só é possível graças ao avanço técnico-científico das últimas décadas, que criou os produtos que as utilizam. Elas não são raras apenas porque existem poucas minas, mas porque seu valor depende do desenvolvimento científico alcançado em países que não desperdiçaram seus cérebros: educados em escolas, formados em universidades e organizados em centros de pesquisa vinculados à indústria. Se o Brasil não fizer esse processo, a Terrabras produzirá para os países que dominam a técnica, para que usem nossas reservas, decidam os preços, importem matéria-prima e revendam como produto final, sob forma de equipamentos que não inventamos nem produzimos por falta de cérebros educados, formados para a ciência, tecnologia e indústria.
Apesar dessa obviedade, tudo indica que será criada a Terrabras, mas a mina do saber continuará ignorada. Negando uma espécie de “conhecimentobras”: um sistema nacional de escolas para oferecer educação de base com a máxima qualidade a todos os cérebros brasileiros, nenhum deles desperdiçado, como hoje ocorre com 80% deles.
Publicado em VEJA de 8 de maio de 2026, edição nº 2994