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Um surto de hantavírus registrado a bordo do navio de cruzeiro holandês MV Hondius no início deste mês colocou autoridades sanitárias de diversos países em alerta e desencadeou uma operação internacional de rastreamento de passageiros. Ainda assim, a Organização Mundial da Saúde (OMS) insiste que o episódio está longe de representar o início de uma nova pandemia.
Em coletiva de imprensa nesta quinta-feira, 7, a epidemiologista Maria van Kerkhove, da OMS, afirmou que a doença “não é Covid, nem gripe”, destacando que o hantavírus possui uma forma de transmissão “muito diferente”, baseada em contato próximo e íntimo. Segundo ela, embora o episódio tenha levantado preocupação devido à documentação inédita de transmissão entre pessoas, o risco global permanece considerado baixo.
O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, reforçou a avaliação e afirmou que a organização acompanha o caso de perto. Até agora, cinco dos oito casos suspeitos foram confirmados, enquanto três pessoas morreram após passarem pela embarcação.
Surto em cruzeiro
O MV Hondius, operado pela empresa Oceanwide Expeditions, iniciou sua viagem em 1º de abril em Ushuaia, no extremo sul da Argentina, em uma expedição de luxo voltada para observação da natureza. O navio levava cerca de 150 passageiros e tripulantes de 28 nacionalidades e tinha como destino final as Ilhas Canárias, na Espanha.
A situação ganhou contornos internacionais depois que dezenas de passageiros desembarcaram na ilha de Santa Helena, território ultramarino britânico no Atlântico Sul, antes da confirmação oficial do primeiro caso, em 4 de maio.
Entre as vítimas fatais está uma holandesa de 69 anos, cujo caso foi confirmado para hantavírus. Segundo autoridades holandesas, ela desembarcou em Santa Helena em 24 de abril e viajou para a África do Sul, onde morreu dois dias depois. Seu marido havia morrido anteriormente a bordo do navio, em 11 de abril, embora o caso dele ainda esteja sob investigação.
Uma mulher alemã também morreu no navio em 2 de maio. O corpo permanece na embarcação enquanto exames são realizados para confirmar a causa da morte.
Medidas sanitárias
O episódio levou governos de diversos países a iniciarem operações de monitoramento sanitário. O Reino Unido informou que sete britânicos estavam entre os passageiros que deixaram o navio em Santa Helena. Dois já estão em isolamento em território britânico, enquanto outros seguem sendo rastreados.
Singapura colocou em isolamento dois passageiros que compartilharam o mesmo voo da vítima holandesa entre Santa Helena e Joanesburgo. Já os estados americanos da Geórgia e do Arizona acompanham três passageiros que retornaram aos Estados Unidos após desembarcarem do cruzeiro — nenhum apresentou sintomas até o momento.
As autoridades espanholas discutem com o Reino Unido a organização de voos especiais de repatriação quando o navio chegar às Ilhas Canárias. Segundo a Defesa Civil da Espanha, ainda permanecem a bordo 19 passageiros e quatro tripulantes.
Transmissão do hantavírus
Embora o hantavírus tradicionalmente seja associado à transmissão por roedores infectados — principalmente por contato com urina, saliva ou fezes — a OMS afirmou que o surto no MV Hondius registrou evidências de transmissão entre humanos, algo considerado raro.
Tedros explicou que os primeiros passageiros infectados haviam feito anteriormente uma viagem de observação de pássaros pela Argentina, Chile e Uruguai, incluindo áreas onde circula uma espécie de rato conhecida por carregar o vírus.
O período de incubação do hantavírus pode chegar a seis semanas, o que aumenta a preocupação das autoridades sanitárias sobre a possibilidade de novos casos surgirem nos próximos dias.
Como medida preventiva, a OMS recomendou o uso de máscaras dentro da embarcação e equipamentos de proteção reforçados para pessoas que tiveram contato próximo com casos suspeitos.
Enquanto isso, o Ministério da Saúde da Argentina anunciou que realizará testes em populações de roedores na região de Ushuaia para investigar uma possível origem do surto.