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O Brasil mudou de família, mas não mudou de mãe. O modelo “comercial de margarina” — casal, filhos dos dois, um Golden retriever, mesa posta e domingo sem conflito — já não representa a maioria dos lares: são 31% dos domicílios, contra 41% em 2010. Ao mesmo tempo, o país tem 11,9 milhões de lares monoparentais, e 86% deles são chefiados por mulheres. Quer dado mais concreto do que esse? Quando a família brasileira se reorganiza, quem segura a geladeira cheia, o uniforme da escola, o remédio da criança e o boleto atrasado, quase sempre, é uma mulher. Na maioria das vezes, mãe.

Por isso o Dia das Mães não pode ser lido apenas como data do varejo. Na última pesquisa que nós do Instituto Locomotiva realizamos em parceria com a QuestionPro aprendemos que 9 em cada 10 brasileiros pretendem presentear alguém nesse dia das mães. Algo como 143 milhões de pessoas. Em 2025, eram 77%. Agora, são 87% com intenção de compra. Brasília pode discutir índice, mercado pode discutir ticket médio, mas a rua entende de outro jeito: o presente da mãe é uma despesa emocionalmente inegociável. O filho pode trocar o perfume por um creme, a roupa por uma lembrancinha, o almoço caro por um café em casa. Mas deixar a mãe sem nada? Isso pesa mais que a fatura do cartão.

O Dias das Mães virou o boleto emocional do Brasil

O mercado erra quando trata esse gesto como consumo supérfluo. Supérfluo é o olhar de quem nunca precisou escolher entre agradar a mãe e fechar a conta do mês. Na Classe C, onde 89% pretendem comprar presente, o Dia das Mães é menos sobre poder aquisitivo e mais sobre pertencimento. É a data em que o “corre” tenta virar carinho embrulhado. O valor do presente muda, mas o compromisso simbólico permanece. É como o futebol de várzea: cada um joga com a bola que tem, mas todo mundo quer entrar no campeonato.

Também é preciso entender que “mãe” deixou de ser apenas uma categoria biológica. A pesquisa mostra que 85% presenteiam a própria mãe, mas 25% lembram companheiras e 21% sogras. O Brasil real é feito de mães, madrastas, avós, tias, mulheres que criam, cuidam, sustentam e organizam a vida quando o Estado atrasa, o pai some, o salário encurta e a rotina aperta. A maternidade virou uma infraestrutura invisível do país.

O paradoxo está aí: a família margarina morreu, mas a mãe ficou ainda maior. Quanto mais fragmentado fica o lar brasileiro, mais central se torna a figura que costura seus pedaços. O Dia das Mães, portanto, não é só uma oportunidade de vendas. É um retrato brutal e bonito do Brasil: um país que pode estar endividado, cansado e desconfiado, mas ainda faz questão de reconhecer quem manteve a casa de pé quando tudo ameaçou cair.



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