Belo Horizonte – A rotina de quem busca lazer, prática de exercícios ou momentos em família em três importantes espaços públicos da região Centro-Sul de Belo Horizonte, capital de Minas Gerais, tem sido marcada por dificuldades. A reportagem conversou com frequentadores da Praça do Papa, Praça JK e Barragem Santa Lúcia, que relatam problemas como pistas de caminhada deterioradas, brinquedos precários, lixo e falta de segurança — situações que colocam em risco crianças, idosos, cadeirantes e demais usuários.
A Subsecretaria Municipal de Zeladoria Urbana (Suzurb) da Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) é a responsável pela manutenção de rotina das praças que compreende serviços de capina, limpeza, varrição, despraguejamento, poda das árvores, pintura, manutenção do piso, plantio de grama e reparo simples em mobiliário.
A PBH tem 10 regionais e cada uma delas é responsável por vistoriar suas praças, fazer as manutenções e reparos de forma periódica ao longo do ano. Segundo a administração municipal, estão previstos R$ 44 milhões destinados em 2026, para os serviços de manutenção de árvores, incluindo a conservação e limpeza de praças, jardins e canteiros centrais. Em 2025, foram investidos R$ 40 milhões neste trabalho.
Praça JK: pista danificada e risco constante
Na Praça JK, no bairro Anchieta, o cenário é de desgaste e insegurança. Frequentadores relatam dificuldades para caminhar e utilizar o espaço com segurança. O local tem cerca de 700 metros de pista e corrida que está deteriorada e cheia de remendos em várias partes. Dos dois bebedouros que ficam nas extremidades do local, apenas um funciona de forma precária e cercado de mato alto e acúmulo de sujeira.
Pai e filho, o psicólogo Flávio Mattos, 69 anos, e o médico Ciro Mattos, 37, também apontam riscos. A raiz da árvores arrebentaram o concreto em vários pontos da pista de caminhada e os remendos feitos só pioraram a situação. “Já tropecei andando à noite por causa das raízes levantando o cimento. Já vi gente correndo e caindo”, relatam.
A publicitária Luciana Campos, 46 anos, caminha diariamente no local e descreve o ambiente como abandonado. “A pista está totalmente danificada, perigosa para cadeirantes, idosos e quem usa carrinho de bebê. É um espaço com potencial, mas o sentimento é de abandono”, afirma. Acompanhada de uma amiga, Luciana estava utilizando um espaço cercado dedicado aos pets. Apesar das críticas a publicitária elogiou o novo espaço. “Está muito bom, a única coisa na praça que está funcionando. Trago minhas cachorras aqui para correrem livres e não atrapalhar quem está fazendo exercícios”, concluiu.
Poder público se explica
A Superintendência de Desenvolvimento da Capital (Sudecap) informou à reportagem do Metrópoles que, conforme publicação no Diário oficial do Município (DOM), o contrato com a empresa responsável pela obra da Praça JK foi encerrado em virtude de rescisão unilateral em conformidade com o Processo Administrativo para Apuração de Responsabilidades e Aplicação de Sanções (PASS). Uma nova licitação de obras para reforma e manutenção da praça será publicada em breve.
Para o professor de patins Alexandre Aguiar, 61, enquanto a situação se arrasta, os frequentadores pagam a conta com a saúde e com o bolso.
“As pequenas reformas feitas não geram efeito algum. Dinheiro de imposto jogado fora. Para carrinho de bebê, cadeirantes, idosos e para quem anda de patins, é um perigo. O asfalto solta e vira buraco rapidamente”, disse indignado.
A dificuldade também é enfrentada por quem cuida de crianças. A técnica de enfermagem Daiene Stefanie Carvalho, 36, que passeia todas as tardes com um bebê de 11 meses, explica: “As rodinhas do carrinho não passam, ficam presas nos buracos. É muito perigoso, principalmente para idosos. tenho que desviar toda hora”, relatou.
Praça do Papa: reforma longa e cobrança por prioridade
Cartão-postal da capital mineira, a Praça do Papa enfrenta uma reforma que já se arrasta há mais de dois anos, com sucessivos adiamentos da entrega total da obra. O espaço, conhecido pela vista privilegiada e por atrair pessoas de todas as classes sociais, tem feito falta principalmente nos fins de semana.
O casal belo-horizontino Days Cosseti, 52 anos, estudante de psicologia e Luis Cláudio Cosseti, 58, médico, frequenta a praça com frequência há muito anos e aproveitou o dia de folga para passear. “É uma área de lazer muito importante, com uma paisagem maravilhosa, acesso fácil e democrática. Faz muita falta, principalmente nos fins de semana, quando queremos sair para arejar a cabeça”, afirmam.
Para eles, a demora na obra revela falta de prioridade da administração pública.
“Quando a gestão pública prioriza, tudo anda rápido. É um descaso com uma praça tão importante para a capital e para o turismo”, criticam. Apesar disso, o casal relatou surpresa ao ver trabalhadores.
Segundo a Prefeitura de Belo Horizonte (PBH), a obra na Praça do Papa está em fase de finalização, com a execução dos serviços de plantio de grama, testes no sistema de irrigação, execução final dos passeios e acabamento do piso inferior. Além disso, a antiga via está sendo incorporada à área da praça, com nivelamento do piso onde serão instalados novos brinquedos, equipamentos de ginástica e banheiro autolimpante.
Visitantes também sentem o impacto da demora. O engenheiro Maurício Martins, 39, e a administradora Dallat Dias, 29, que vieram do Rio de Janeiro, não conseguiram aproveitar o espaço na primeira visita à capital e se sentiram frustrados por não o espaço completo para passear. “Voltamos a BH e resolvemos vir aqui na praça agora para ver a vista. É um pouco decepcionante, mas esperamos que com a reforma, vai ficar bem bonita”, disseram.
A previsão é de que a Praça do Papa, que já tem uma parte liberada, seja entregue totalmente para uso da população ainda no primeiro semestre de 2026.
Barragem Santa Lúcia: escuridão e sensação de insegurança
Na Barragem Santa Lúcia, além dos problemas estruturais, a falta de iluminação tem gerado insegurança, principalmente no fim do dia. O motorista Robson Batista, 41 anos, veio passear com a filha de três anos e criticou a situação. “A iluminação é muito precária, principalmente à noite. O asfalto está cheio de buracos, a estrutura deixa a desejar”, afirma.
As irmãs Katharina Borges, 34, advogada, e Carolina Bonela, 32, empresária, faziam um piquenique com pequeno Leonardo, o pai e a cadela Olívia. As irmãs reclamam da infraestrutura precária para os frequentadores e relatam mau cheiro em alguns trechos da barragem. “A limpeza precisa melhorar, há mau cheiro. Meu pai já foi assaltado aqui”, contam.
Carolina, que gosta de correr, evita o espaço. Ela explica que tem que se programar para ir a locais mais distantes para praticar o esporte de sua preferência. “A pista tem muitos defeitos, por isso não venho correr aqui. Falta banheiro e também opções de brinquedos para crianças, mas infelizmente é o que tem, senão ficamos somente em casa”, lamenta.
A sujeira que incomoda as irmãs também é alvo de críticas da babá Terezinha Isabel Gonçalves, 68 anos. Ela afirma que há acúmulo de lixo em alguns pontos e cobra também a educação dos frequentadores. “É o único lugar para passear perto de casa, mas precisa de mais cuidado da prefeitura e a população também precisa colaborar”, pondera.
Apesar das reclamações e da constatação in loco dos diversos problemas que a área apresenta a Fundação de Parques Municipais e Zoobotânica (FPMZB) relatou que a Barragem Santa Lúcia passa por acompanhamento contínuo, com ações periódicas de limpeza, capina e manutenção. “Os serviços contam com apoio da Superintendência de Limpeza Urbana (SLU), que realiza o recolhimento diário de resíduos. As ações são realizadas conforme a necessidade, com intensificação no período chuvoso.”.
Um pequeno jardim
Mesmo diante dos problemas, há quem tente melhorar o ambiente. O comerciante Marcelo Ferreira, 63, conta que criou um jardim por conta própria. Proprietário de um pequeno trailer de lanches, Marcelo está há um ano no ponto e conta que o pequeno jardim é para ajudar a deixar a barragem mais agradável e bonita para todos.
“Gosto de manter o espaço bonito, trabalhar em um ambiente mais agradável. Os frequentadores da praça sempre elogiam minhas rosas e o canteiro todo enfeitado”, afirma.





































