Um terreno com mais de 2 mil metros quadrados abandonado em uma área de luxo do Park Way, no Distrito Federal, viralizou nas redes sociais e intrigou moradores da capital devido a mobília completa e um exemplar do clássico Porsche 911 na garagem.
Localizada ao lado do Aeroporto Internacional de Brasília, a casa tem dois andares, espaço de lazer e preenche lote em área considerada nobre. Mesmo assim, a propriedade– que conta até mesmo com um pergolado, agora desmoronado – foi deixado à própria sorte há pelo menos 10 anos.
O Metrópoles foi atrás da história do imóvel, que começa com a compra do lote em 1996. O terreno foi adquirido por um ex-servidor público, casado sob regime parcial de bens. Foi no local que, posteriormente, o casal levantou a casa que abrigaria a família.
Segundo um processo que corre na Justiça, os moradores interromperam o pagamento do condomínio em 2013. Tempos depois, acabaram abandonando o terreno aos poucos.
Após várias tentativas de resolver o impasse e até mesmo buscas infrutíferas por bens do dono da casa para quitação dos débitos, a residência acabou sendo penhorada em 2025. Com a incidência de juros, a dívida hoje chegou a R$ 141.802,16.
A reportagem teve acesso à ação judicial. Nela, uma testemunha declarou, em documento reconhecido em cartório, que o proprietário teria dito, em dezembro de 2023, que “abandonou o imóvel” e que “a Justiça que resolva” a situação.
Como consequência do imbróglio, a casa foi colocada a leilão para pagamento das dívidas. A ação ocorrerá em duas praças. A primeiro está marcado para 4 de maio e terá lance inicial de R$ 1,1 milhão. Caso não haja lances no primeiro lote, o segundo acontecerá em 7 de maio, com valor inicial de R$ 669 mil.
Cenário de filme de terror
O Metrópoles esteve no endereço. Escondida entre galhos de árvores sem poda, a casa, cujo cenário se assemelha ao de um filme de terror, contrasta em meio a terrenos floridos do residencial.
Na propriedade, móveis empoeirados, teias de aranhas intactas e uma piscina tomada por água suja– encoberta por densa vegetação, denunciam a negligência sofrida pelo lote.
À primeira vista, um detalhe vermelho, em meio a tons predominantes de marrom, atrai o olhar de quem passa pelo local. Na garagem, coberto por uma fina camada de terra, uma réplica do clássico Porsche 911 também carrega as marcas do abandono.
O carro, porém, não foi o único veículo deixado para trás. Além dele, um Fiat Marea, um jetsky e duas motos também encontram-se abandonados.
Veja:
Na porta de entrada — protegida por correntes e cadeados — um vidro quebrado revela detalhes intrigantes do interior do imóvel.
Como se não tivessem sido tocados pelo tempo, móveis estampados, quadros decorativos e até um porta-retrato apoiado sobre a lareira permanecem em seus devidos lugares.
Na mesa de centro, peças de um jogo de xadrez, perfeitamente posicionadas sobre um tabuleiro, quase convidam o observador para uma partida. Elementos como esses despertaram a curiosidade de moradores de Brasília, que tentam entender o motivo do misterioso abandono da propriedade.
Como consequência de anos sem reparos, o terreno que circunda a propriedade é repleto de armadilhas.
Por falta de rastelagem, por exemplo, um mar de folhas caídas engole quem tenta se aproximar da casa, tal qual areia movediça. Água parada e árvores que ameaçam tombar também foram apontados por moradores como tragédias anunciadas.
O Metrópoles apurou que o proprietário costuma aparecer esporadicamente no endereço. Apesar disso, nunca teria procurado a administração do condomínio para findar as pendências. Também não realizou reparos nem retirou os veículos abandonados.
O homem acumula, ainda, inúmeros outros processos judiciais também relacionados a falta de pagamentos. No âmbito criminal, tem passagens pela polícia por ameaça, Lei Maria da Penha, difamação e evasão do local de acidente de trânsito.
O outro lado
Por meio de nota, o dono do lote no Park Way negou a situação de abandono. Segundo o homem, os veículos e móveis estão trancados e protegidos dentro da casa, que tem “acompanhamento” e “constante visitação” dele.
Ao Metrópoles, o proprietário disse que o imóvel passa por “litígio em um processo de separação judicial e divisão de bens entre cônjuges”. Além disso, atribuiu a responsabilidade da atual situação do terreno à “incompetência da Justiça” no processo de divórcio.
Conforme informou, a ex-companheira não foi intimada, prejudicando a “solução do problema” e majorando “a dívida” do condomínio. De acordo com ele, a falta da citação da mulher também “impedirá a realização do leilão”. “Como foi o caso de outro imóvel leiloado indevidamente em 2014”, declarou.
Na nota, o proprietário confirmou a existência de outros processos por inadimplência. “[São] sobre os veículos que lá [na casa colocada a leilão] estão devidamente guardados, aguardando a solução judicial”, explicou.
Ele negou, ainda, ter cometido agressões ou ameaças: “Posso afirmar que são mais especulações infundadas e mentirosas, já que nunca agredi ninguém em minha vida. A única questão, quanto a alguns profissionais da Secretaria de Saúde, foi devidamente denunciada na ouvidoria do GDF”


























