Um fóssil guardado há mais de um século em um museu ajudou paleontólogos a confirmar que uma equidna-gigante extinta viveu no sudeste da Austrália durante a Era do Gelo. A descoberta foi feita a partir de um fragmento de crânio coletado em 1907 em uma caverna subterrânea e analisado novamente por pesquisadores do Museums Victoria Research Institute.
O estudo, publicado em abril na revista de paleontologia Alcheringa, identificou a extinta equidna-gigante-de-Owen, chamada cientificamente de Megalibgwilia owenii. O fóssil estava entre materiais coletados na Foul Air Cave, em Buchan, no estado de Victoria, na Austrália.
A identificação é considerada importante porque ajuda a preencher uma lacuna de mais de mil quilômetros entre descobertas anteriores da espécie. Até então, fósseis da Megalibgwilia owenii já haviam sido encontrados em regiões como Austrália Ocidental, Tasmânia e sul de Nova Gales do Sul, mas não havia registro confirmado em Victoria.
O que é uma equidna?
As equidnas são mamíferos nativos da Austrália e da Nova Guiné. Ao lado dos ornitorrincos, fazem parte do grupo dos monotremados, mamíferos que botam ovos em vez de dar à luz filhotes já formados. Apesar dessa característica incomum, elas amamentam os filhotes, como outros mamíferos.
As espécies atuais têm corpo coberto por espinhos, focinho alongado e alimentação baseada principalmente em formigas e cupins. Em geral, medem entre 35 e 45 centímetros e pesam de dois a sete quilos. Para encontrar alimento, usam um sistema sensorial apurado, com receptores no focinho capazes de detectar sinais elétricos produzidos por pequenos animais no solo.

A espécie extinta identificada pelos pesquisadores era muito maior que as equidnas atuais. A Megalibgwilia owenii podia atingir até um metro de comprimento e pesar cerca de 15 quilos, tamanho comparado ao peso de uma criança pequena.
O nome da espécie combina o termo do grego antigo “mega”, que significa grande ou poderoso, com “libgwil”, palavra da língua Wemba Wemba usada para se referir à equidna. Segundo os pesquisadores, o animal tinha um focinho reto e característico, adaptado para cavar os solos duros da Austrália durante o Pleistoceno e capturar grandes insetos.
O fragmento de crânio analisado é considerado um dos primeiros fósseis de megafauna recuperados das cavernas de Buchan. A ausência de registros da espécie em Victoria era vista como um mistério, já que a região tinha ambiente adequado e importantes sítios fossilíferos.
Descoberta estava no museu
A solução não veio de uma nova escavação, mas da revisão de uma coleção histórica. O paleontólogo Tim Ziegler viu o fóssil pela primeira vez em 2021, na Coleção de Paleontologia do Museums Victoria. A partir de arquivos antigos, ele demonstrou que o material havia sido recuperado durante uma expedição feita em 1907 pelo naturalista Frank Spry.
Depois de reconhecer o crânio incomum, Ziegler e Jeremy Lockett, da Deakin University, mediram e fizeram escaneamentos 3D de equidnas modernas e fósseis preservados em museus da Austrália. As análises confirmaram que o material pertencia à Megalibgwilia owenii.
“As coleções de museus preservam o vínculo entre ciência, patrimônio e pessoas”, afirmou Ziegler. Para ele, a descoberta mostra que acervos antigos ainda podem revelar informações desconhecidas pela ciência, mesmo mais de 100 anos depois da coleta original.