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Existe uma frase do médico canadense, William Osler, que diz: “Nada na vida é mais maravilhoso que a fé – a única grande força motriz que não podemos pesar na balança e nem testar no cadinho (objeto de laboratório para experiências químicas)”. E não é de hoje que essa “força motriz” – que aqui chamaremos de espiritualidade e religiosidade – recebe atenção da comunidade científica como ferramenta de promoção de saúde.

Desde os anos 1960, estudos epidemiológicos checam associações entre espiritualidade e bem-estar físico e mental. Menos estresse, mais autocuidado, melhor enfrentamento de doenças crônicas ou incuráveis – como as cardiovasculares – fazem parte do ranking de dividendos alcançados por pacientes que cultivam esses valores. E não é místico: tudo está baseado em pesquisas observacionais consistentes.

Vale relembrar os conceitos de espiritualidade e religiosidade, que, não raro, se confundem: espiritualidade é uma busca pessoal pela compreensão sobre o significado da vida e não necessariamente passa por ter uma religião ou por práticas rituais. Já a religiosidade possui envolvimento com uma religião que, por meio de ritos e símbolos, objetiva a conexão com o sagrado. E ambos os caminhos são virtuosos para prevenção e tratamento de doenças crônicas.

Entre as várias possibilidades que comprometem os resultados positivos das terapias de combate e controle das doenças do coração, a adesão ao tratamento ganha destaque. Para se ter uma ideia, o Estudo Multicêntrico Brasileiro para Avaliar Fatores Precipitantes de Descompensação da Insuficiência Cardíaca (EMBRACE), 55% dos casos de descompensação de insuficiência cardíaca ocorreram devido à baixa adesão ao protocolo proposto.

Indisciplina, questões financeiras, incompreensão sobre a gravidade do diagnóstico explicam este cenário. Mas a não espiritualidade também pode ser relevante para que o paciente não se empenhe.

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Um exemplo prático

Dona Margarida, mulher de 60 anos, hipertensa, com colesterol elevado e risco cardiovascular alto não fazia o uso correto dos medicamentos prescritos e não cumpria orientações dos médicos, comprometendo sua saúde. À primeira vista, tratava-se de um caso típico de baixa adesão ao tratamento.

Mas a história da paciente tinha mais a contar: o que impedia dona Margarida de tomar os remédios foi que a vida havia perdido a razão depois que os filhos saíram de casa e ela se viu “sem função”. Tudo o que cultuava até então – sua comunidade, a igreja, o voluntariado – não sustentavam seu propósito existencial. E o corpo adoeceu quando a alma ficou sem vontade.

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É aqui que espiritualidade deixa de ser conceito abstrato e se torna recurso clínico. Ao ver os motivos reais, os médicos estariam aptos a propor um novo tratamento. Profissionais de psicologia poderiam orientá-la para o resgate de seus valores espirituais e autoconhecimento, fazendo com que sua existência ganhasse novo sentido. E talvez esse seja o ponto central: ninguém se cuida quando não sabe mais porque viver.

Um olhar além do físico

Na prática clínica ainda carecemos do olhar mais atento, que encare a espiritualidade com a seriedade que ela merece para a boa evolução do paciente. Mas falta formação específica para detectar esse tipo de falha, linguagem apropriada para abordagem e até coragem para ouvir o que não tem como ser preenchido em um prontuário eletrônico padrão.

Porém, as diretrizes de cardiologia já começam a reconhecer e documentar essa tendência. A Diretriz de Prevenção Cardiovascular da Sociedade Brasileira de Cardiologia de 2019 foi pioneira no mundo ao incluir um capítulo sobre espiritualidade, relacionando com menores índices de tabagismo, sedentarismo e melhor adesão à prevenção cardiovascular em geral. Depois dessa publicação, diretrizes da Europa e dos Estados Unidos fizeram suas referências.

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Mais recentemente, a Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial propõe espiritualidade e religiosidade como medidas preventivas e de manejo não farmacológico da hipertensão. Além disso, recomenda que profissionais de saúde sejam treinados para mencionar esses aspectos, com respeito às crenças pessoais.

Devemos entender que há espaço para a espiritualidade na medicina do futuro e ela não será menos científica por isso. Ao contrário: será mais precisa. Porque passará a considerar dados que hoje tratamos como ruído, mas que influenciam diretamente os desfechos que tanto nos preocupam. No caso da cardiologia, precisamos reconhecer que o coração humano não responde apenas a fármacos, responde também a sentido, pertencimento e propósito.

* Diandro Mota é cardiologista, médico do Instituto Dante Pazzanese, em São Paulo, e assessor científico da SOCESP – Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo



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