
A ameaça de liquidação do Banco de Brasília (BRB) pelo Banco Central ganhou força nesta terça-feira, 31, mas analistas ouvidos por VEJA consideram esse desfecho o cenário mais extremo e, neste momento, o menos provável.
A avaliação é que a autoridade monetária ainda dispõe de alternativas para evitar a quebra da instituição, desde que o banco consiga apresentar, até o fim do dia, um plano crível de recuperação financeira. Executivos do BRB têm uma reunião marcada com o Banco Central a partir das 17h desta terça-feira. O conteúdo do encontro, no entanto, não foi divulgado.
O banco chegou a essa situação depois de comprar 12,2 bilhões de reais em carteiras de crédito do Banco Master. Os ativos estavam carregados de problemas e passaram a ser associados a uma operação vista como fraudulenta contra a instituição. Após a liquidação do Master, o BRB foi arrastado para uma crise reputacional que rapidamente contaminou sua operação.
A deterioração da confiança desencadeou uma onda de saques e pressionou a liquidez do banco. Em fevereiro, a instituição vendeu 5 bilhões de reais em ativos para reforçar o caixa, mas a operação não foi suficiente para conter o desgaste. Na tentativa de evitar um agravamento da crise, o governo do Distrito Federal vendeu terrenos avaliados em 3 bilhões de reais e recorreu ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC) em busca de um empréstimo de 4 bilhões de reais.
O pedido ainda está em análise, mas o fato de o FGC já ter solicitado a documentação necessária para dar continuidade à etapa preliminar do processo foi interpretado por analistas como um sinal relevante. A leitura predominante é que, do ponto de vista financeiro, socorrer o BRB pode sair mais barato do que liquidá-lo.
Os números ajudam a explicar essa conta. Dados do Banco Central de setembro de 2025 mostram que o BRB reúne cerca de 52 bilhões de reais em depósitos, entre recursos à vista, aplicações a prazo e poupança. Como esses valores são cobertos pelo FGC, uma eventual liquidação imporia ao fundo um custo potencialmente muito superior ao valor do empréstimo solicitado pelo banco.
Liquidação seria a solução mais traumática
Para Pedro Abrão, advogado especializado em instituições financeiras e de pagamento, a liquidação só deveria entrar no radar caso o BRB se tornasse uma instituição inviável do ponto de vista operacional e patrimonial — algo que, na avaliação dele, ainda não ocorreu.
“O BRB é uma instituição viável, com uma carteira de varejo forte e uma função social clara no Distrito Federal. O desafio atual é um ajuste patrimonial específico. O princípio jurídico que deve nortear a decisão do Banco Central é o da preservação da empresa e da proteção da poupança popular”, afirma.
Na visão do especialista, o papel do regulador, neste momento, deveria ser o de impor condições duras para a sobrevivência do banco, e não necessariamente decretar sua liquidação. “O BC deve exigir que o controlador injete capital, aperfeiçoe a governança e preserve a continuidade dos serviços prestados à população e aos servidores públicos”, diz.
André Vasconcellos, professor da Trevisan Escola de Negócios, acrescenta outro elemento que torna o caso ainda mais delicado: o fato de o BRB ser uma estatal. Segundo ele, isso eleva o custo político e institucional de qualquer decisão mais radical.
Pela legislação, empresas estatais não podem simplesmente ser encerradas como uma companhia privada comum. No caso do BRB, por se tratar de uma instituição vinculada ao Distrito Federal, um eventual fechamento exigiria participação do Poder Legislativo local. “Esse fator dificulta qualquer liquidação da empresa por parte do Banco Central”, afirma Vasconcellos.
Diante desse quadro, a percepção entre os analistas é que a liquidação do BRB permanece como uma possibilidade formal, mas ainda distante. O mais provável, segundo eles, é que o Banco Central tente extrair do controlador um plano de reestruturação robusto, com reforço de capital, ajustes de governança e uma saída que evite transformar uma crise patrimonial em uma crise institucional de maiores proporções.