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É difícil fazer a paz com inimigos, mas mais complicado ainda com aliados. A entrada em cena do vice-presidente JD Vance como integrante das negociações indiretas com o Irã, mediadas pelo Paquistão, dá indícios de que Donald Trump sabe que precisará administrar as demandas de Israel, nem sempre coincidentes com as dos Estados Unidos.

Indício número 1: uma “fonte do governo” disse ao site Axios que Vance teve uma conversa áspera com o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, acusando-o de vender a Trump uma certeza não confirmada pela realidade de que haveria uma rebelião popular depois dos primeiros ataques contra alvos do regime iraniano, consumando uma vitória relativamente fácil.

É claro que a informação partiu do campo do vice-presidente, apesar dos desmentidos de praxe.

Indício número 2: outra fonte com forte tendência a ser da mesma origem disse que Israel estava plantando uma versão mentirosa, de que o Irã preferia negociar com Vance, mais suscetível a um acordo para uma guerra da qual nunca foi um entusiasta.

“É uma operação israelense contra JD”, acrescentou a fonte, em termos indicativos de que o atrito é sério.

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ADMINISTRANDO A ANSIEDADE

Mais um indício: o vazamento de que o vice-presidente “gritou” com Netanyahu, por causa da inação do governo em controlar os israelenses ultrarradicais que atacam violentamente moradores de vilarejos palestinos, pretendendo expulsá-los de lá e eventualmente erguer no lugar assentamentos judaicos. É coisa de país do terceiro mundo e o governo americano “não tem mais paciência para desculpas”, foram termos atribuídos ao vice-presidente.

JD Vance, claro, negou tudo. Mas é óbvio que os vazamentos, mesmo se não refletirem a plena verdade, indicam uma área complexa num eventual entendimento sobre o fim das operações no Irã. Para Israel, obviamente, é negativo deixar o serviço pela metade – uma posição em que o país todo concorda. A pesquisa mais recente mostra que nada menos de 78% dos israelenses judeus são a favor do prosseguimento da guerra enquanto não houver garantias de que as três principais ameaças iranianas – projeto nuclear, programa de mísseis e sustentação a grupos como Hezbollah e Hamas – sejam neutralizadas.

É possível que Trump tenha colocado JD Vance, um político sem habilidades diplomáticas ou negociadoras conhecidas, para administrar a ansiedade de Israel – e principalmente para agradar a ala do Partido Republicano que pensa como o vice-presidente, contrária a guerras em lugares distantes que não representam uma ameaça imediata aos Estados Unidos. Vance tem feito tremendos exercícios de disciplina para mostrar lealdade a Trump sem que isso implique em abraçar entusiasticamente a causa da guerra.

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O jogo de Trump é arriscadíssimo: tem que admitir um aumento de impopularidade num prazo obrigatoriamente curto – se não quiser ver os republicanos moídos na eleição legislativa de novembro -, conduzir uma solução para o Irã sem que pareça estar cedendo demais, combater a ideia de que foi manipulado por Israel e, olhando mais para a frente no tabuleiro, enfrentar os desafios mais prementes colocados pela China.

Tem a seu favor vários elementos, a começar pela riqueza energética dos Estados Unidos. Não atrapalha em nada ter acesso ao petróleo venezuelano desde que Nicolás Maduro foi abduzido e o regime se tornou extremamente suscetível a negociações.

PONTOS VULNERÁVEIS

Os mais conspiracionistas enxergam até jogadas maquiavélicas: o ataque israelense ao maior campo de extração de gás do Irã, retaliado com um bombardeio a instalações do Catar, talvez não tenha sido assim tão impetuoso. Enquanto os dois grandes produtores de gás do Oriente Médio estão abalados, com prazo de até cinco anos para recuperar a normalidade, os Estados Unidos continuam sua trajetória ascendente.

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Esse movimento começou com a guerra da Ucrânia, fortemente prejudicial ao gás russo. E quem substituiu a Rússia? Em 2021, os Estados Unidos forneciam 28% do gás consumido na Europa, proporção que hoje atinge 58%.

Com uma carta energética fortíssima na mão, os Estados Unidos precisam cuidar de seus pontos mais vulneráveis: terras raras e produção de semicondutores, dependentes do gás hélio que procede do Oriente Médio. Nesse campo será vencida a batalha da inteligência artificial. O papel de JD Vance para apressar um acordo no Irã talvez não pareça tão inexplicável assim.

Chegará Trump para a cúpula com Xi Jinping, em 14 de maio, nadando em petróleo, flutuando em gás, com o dólar fortalecido como moeda de troca, o Estreito de Ormuz sob controle e dois dos maiores fornecedores da China, Venezuela e Irã, sob nova administração?

Ou, claro, muita coisa pode dar errado nesse período.



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