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No dia 18 de setembro de 2000, às 4h20 da manhã, um homem inglês foi preso pela polícia de Nova York vandalizando o outdoor de uma grife de moda no telhado de um prédio em Manhattan. Acusado de conduta desordeira, pagou uma multa de 310 dólares e prestou cinco dias de serviço comunitário. O episódio aparentemente banal ganhou nova dimensão neste mês: em uma ampla investigação feita pela agência de notícias Reuters, descobriu-se que aquele homem seria ninguém menos que o misterioso e aclamado artista de rua Banksy, que na época ainda assinava com seu nome verdadeiro, Robin Gunningham, como consta no boletim de ocorrência. Em 2008, o tabloide inglês The Mail já havia apontado o mesmo nome como a identidade revelada do artista. Logo depois, o rastro sumiu. Segundo seu ex-empresário, Gunningham mudou legalmente de alcunha e passou a se chamar David Jones, um dos nomes mais populares da Inglaterra, como um João da Silva no Brasil, voltando assim a ser praticamente irrastreável.

O caso voltou à tona agora com a investigação da Reuters, que trouxe provas robustas ligando Gunningham a Banksy. A revelação provocou também bastante polêmica, com muitos críticos dizendo que a privacidade seria um direito inalienável de um artista. No caso de Banksy, o anonimato ajudou a criar a fama e mística em torno dele — algo reconhecido até pelo próprio. “Ninguém nunca me notou, isso até não saberem quem eu sou”, afirmou Banksy em 2005 — em entrevista mediada por seus representantes.
Em tempos de busca desenfreada pela fama, personalidades que optam por pseudônimos e distância da vida pública acabam, ironicamente, chamando ainda mais atenção. Os atrativos do anonimato vão desde a liberdade destinada aos desconhecidos até a autonomia para trabalhar e criar sem se preocupar com julgamentos, sejam eles morais ou legais. Na literatura, um exemplo atual e emblemático é o da best-seller Elena Ferrante, a autora de A Amiga Genial, também alvo de uma investigação intrusiva que apontou a tradutora italiana Anita Raja como a pessoa física por trás do codinome. Sem falar dos detetives digitais que criam teorias mirabolantes. Segundo uma delas, o rapper mascarado EsDeeKid seria, na verdade, o ator Timothée Chalamet.

Para Banksy, mais do que uma fuga da fama, sua identidade secreta o protege de acusações criminais e perseguições políticas: o artista é um ávido ativista de causas variadas, que podem até mesmo colocar sua vida em risco. Uma das pistas deixadas por David Jones, ou melhor, Banksy, foi sua entrada na Ucrânia, em 2022, onde aplicou grafites em escombros como forma de protesto contra a guerra iniciada pela Rússia. Na Inglaterra, em setembro do ano passado, ele desenhou um manifestante palestino sendo hostilizado por um juiz no prédio do Tribunal de Justiça de Londres, imagem que foi prontamente apagada pelas autoridades. Se fosse identificado, Banksy seria preso pelo ato, já que grafite sem autorização é crime no país. Além das implicações legais, o valor das obras do artista pode mudar de agora em diante — o que, para ele, não parece ser tão importante. Banksy lucra pouco com seu trabalho. Raras vezes ele promove exposições superprivadas, vendendo obras a preços que vão de 60 a 500 000 libras. Seu patrimônio é de 5,7 milhões de libras — um troco comparado ao que ganham os que revendem suas obras: no mercado secundário, o trabalho do grafiteiro movimentou 248 milhões de libras nos últimos dez anos.
Se seguir o resultado dos colegas desmascarados, ele não precisa se preocupar. Quando Elena Ferrante foi atrelada a Anita Raja — e também ao marido dela, o escritor Domenico Starnone —, seus livros tiveram um salto de venda. A autora de Harry Potter, J.K. Rowling, também lucrou quando revelaram que ela usava o pseudônimo Robert Galbraith, aumentando a busca por seus romances policiais secretos. Já EsDeeKid e Chalamet se uniram para uma colaboração musical, que levou a dupla (ou seria uma pessoa só?) aos dez mais ouvidos da parada britânica. Pode ser bastante lucrativo ter uma identidade quase secreta.
Com reportagem de Beatriz Haddad
Publicado em VEJA de 27 de março de 2026, edição nº 2988