Ler Resumo

Houve um tempo — não tão distante na escala da evolução — em que nossa sobrevivência dependia da capacidade de ler a paisagem. Água corrente significava vida. Árvores ofereciam sombra, alimento e abrigo. O verde e o azul não eram cenários, mas garantias. Ao optar pelo desenvolvimento cognitivo, pela postura ereta e pela engenhosidade técnica, nossa espécie trocou força física por imaginação. Porém, não trocou de biologia: o corpo que hoje caminha sobre asfalto e cimento é, em grande medida, o mesmo que um dia percorreu savanas e margens de rios.

Talvez por isso a natureza ainda nos afete de modo direto, a ponto de interferir com a nossa fisiologia. Estudos recentes mostram que caminhar em áreas arborizadas reduz níveis de cortisol, modula a variabilidade da frequência cardíaca (ambos marcadores de estresse) e atenua marcadores inflamatórios. Pesquisas com neuroimagem sugerem que a exposição a ambientes naturais diminui a atividade de circuitos associados à ideação de pensamentos recorrentes e à ansiedade, modulando regiões do sistema límbico envolvidas na percepção de ameaça. Mais do que paisagem, o verde é estímulo biológico.

A arquitetura hospitalar aprendeu isso cedo. No clássico estudo de Roger Ulrich, professor de Arquitetura no Centro de Pesquisa em Edifícios para a Saúde da Universidade de Tecnologia de Chalmers, na Suécia, realizado em 1984, pacientes com vista para árvores apresentaram menos complicações e receberam alta mais rapidamente do que aqueles cujas janelas davam para uma parede. Desde então, consolidou-se a noção de que ambientes de cuidado devem incorporar luz natural, vegetação e vistas abertas.

Em São Paulo, onde o concreto avançou de forma célere sobre as copas de árvores e sepultou cursos de água e as respectivas matas ciliares, essa discussão ganha contornos urgentes. O verde urbano não é ornamento; é infraestrutura silenciosa. Árvores filtram poluentes, amortecem ruídos, reduzem ilhas de calor e mitigam enchentes. O ruído constante fragmenta o sono e perpetua o estado de alerta; o farfalhar das folhas e o som da água corrente fazem o oposto — desaceleram. Dormir melhor é proteger a saúde mental.

Para as crianças, o contato com a natureza é ainda mais decisivo. Explorar o solo, subir em árvores, tocar a terra amplia repertórios sensoriais e estimula criatividade e autonomia. A chamada hipótese da biodiversidade sugere que ambientes naturais mais ricos favorecem a maturação do sistema imunológico e reduzem o risco de alergias. Talvez estejamos substituindo antígenos por algoritmos, solo vivo por telas luminosas.

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Num momento em que se discutem, em parlamentos municipais, propostas de supressão de árvores para evitar quedas de energia, convém lembrar que há alternativas técnicas para os fios e também que não há substitutos para os efeitos psicobiológicos do verde. Enterrar cabos é investimento. Enterrar árvores pode significar empobrecer nossa paisagem interna.

São Paulo é, ao mesmo tempo, laboratório e advertência. A distribuição desigual de áreas verdes espelha desigualdades sociais e também de sofrimento psíquico. Cuidar do verde é cuidar da cidade — e de nós mesmos. Em tempos de mudanças climáticas e expansão urbana, preservar e ampliar a infraestrutura verde e azul é menos uma escolha estética do que uma decisão sanitária. Afinal, nossa mente ainda reconhece, mesmo entre arranha-céus, o antigo idioma das árvores.

*Paulo Saldiva é coordenador da Iniciativa Saúde Urbana do Centro de Estudos das Cidades – Laboratório Arq.Futuro do Insper, além de médico formado pela USP e professor titular do Departamento de Patologia da instituição desde 1996.



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