Ele chega sem fazer alarde. Não fecha escolas, não impõe máscaras, não provoca coletivas de imprensa dramáticas no fim da tarde. Mas ocupa berços de UTI, acelera a respiração das crianças e transforma o chiado no peito de um bebê em desespero familiar.

O vírus sincicial respiratório — o VSR — é o protagonista silencioso das internações por bronquiolite no Brasil. No mundo, estima-se que ele cause cerca de 33 milhões de infecções respiratórias agudas por ano em crianças menores de cinco anos. Destas, 3,6 milhões evoluem para quadros graves com necessidade de hospitalização, e entre 66 mil e 199 mil resultam em morte. Não é pouca coisa para um vírus que quase nunca vira manchete.

No Brasil, assim como em outros países, o VSR é a principal causa de bronquiolite, pneumonia e hospitalização em menores de um ano. E há um dado que desafia o senso comum: embora prematuros e crianças com comorbidades tenham risco maior, a maioria das hospitalizações ocorre em bebês previamente saudáveis. Ou seja, não estamos falando apenas de um problema restrito a grupos específicos, mas de uma ameaça ampla, que atravessa perfis sociais e histórias clínicas.

Até pouco tempo atrás, o enfrentamento do VSR era quase exclusivamente reativo: oxigênio, fisioterapia, suporte intensivo. Esperava-se o vírus chegar para, então, agir. Havia um anticorpo monoclonal disponível há anos, mas restrito a grupos de alto risco durante a sazonalidade. Era uma proteção importante, porém limitada.

Agora, pela primeira vez, temos uma combinação de estratégias capaz de mudar o curso dessa história. De um lado, a vacinação materna. Indicada para gestantes a partir da 28ª semana, a vacina demonstrou eficácia de 81,8% na prevenção de doença grave por VSR em bebês até três meses de vida e de 69,4% até os seis meses. Trata-se de uma lógica conhecida: proteger o bebê ainda no útero por meio da transferência de anticorpos maternos. É a ciência trabalhando com o tempo biológico da gestação para blindar o período mais vulnerável da vida.

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De outro lado, temos agora um anticorpo monoclonal de longa ação, aplicado na criança, em dose única. Em estudos clínicos, mostrou eficácia de quase 80% na prevenção de infecções respiratórias baixas com necessidade de atendimento médico e hospitalizações, e 86% na prevenção de formas muito graves. E uma dose única pode proteger por toda a sazonalidade.

A pergunta que naturalmente surge — vacinar a gestante ou aplicar o anticorpo na criança? — tem uma resposta menos excludente do que parece. Ambas as estratégias são eficazes. A vacinação materna é oferecida de forma universal às gestantes; os anticorpos monoclonais ampliam a proteção, especialmente em prematuros e crianças com comorbidades.

O Brasil dispõe agora, no PNI, de ferramentas modernas, respaldadas por evidências robustas e por recomendações das principais sociedades científicas. Mas ferramenta não é sinônimo de impacto. Para que a história mude, é preciso cobertura adequada. Informação clara. Fortalecimento da confiança. Registro adequado das doses. Vigilância de eventos adversos. É preciso que a vacinação da gestante seja vista não como mais uma injeção no pré-natal, mas como um gesto de cuidado que atravessa o parto e protege o início da vida.

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A bronquiolite não deveria ser encarada como um ritual inevitável da infância brasileira. Cada leito de UTI ocupado por VSR é também um lembrete de que a prevenção não pode continuar sendo coadjuvante. Durante décadas, assistimos ao VSR lotar emergências pediátricas a cada mudança de estação. Pela primeira vez, temos a chance concreta de inverter essa lógica: agir antes da primeira respiração ofegante, antes da primeira madrugada em claro no hospital.

O vírus continua o mesmo. O que mudou foi a nossa capacidade de enfrentá-lo. Desperdiçar essa oportunidade seria algo imperdoável.

* Eduardo Jorge da Fonseca Lima é pediatra e presidente do Departamento Científico de Imunizações da Sociedade Brasileira de Pediatria

 



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