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O Brasil realizará em abril seu primeiro leilão de baterias em larga escala para o sistema elétrico, um marco para a transição energética nacional.

É um novo capítulo da crescente influência chinesa no setor de energia da América Latina. A disputa deve colocar empresas chinesas frente a frente com nomes como Tesla e Petrobras, em um mercado estratégico para lidar com os limites da expansão acelerada de fontes renováveis.

O leilão ocorre em um momento em que o excesso de geração solar e eólica começa a se transformar em prejuízo econômico.

Em 2025, o país desperdiçou cerca de 26% da energia solar e 19% da eólica produzidas, segundo a BloombergNEF, fenômeno conhecido como curtailment, quando usinas são forçadas a desligar por falta de demanda ou infraestrutura para escoamento.

Leilão de baterias testa poder chinês no setor elétrico brasileiro

Entre 2007 e 2024, projetos no setor elétrico responderam por 45% de todos os investimentos chineses no Brasil, somando US$ 35 bilhões, de acordo com a Brazil-China Enterprise Coalition.

O novo leilão surge como mais uma porta de entrada para empresas que já dominam cadeias globais de produção de baterias e equipamentos de armazenamento.

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O governo brasileiro espera contratar até 2 gigawatts de capacidade. Estimativas da BloombergNEF indicam que o país pode adicionar cerca de 1,3 gigawatt por ano em sistemas de armazenamento até 2030.

A experiência chinesa pesa a favor dessas empresas. A China lidera a produção mundial de baterias e é o maior investidor global em energia renovável, tendo enfrentado antes os desafios de integrar armazenamento às redes elétricas.

Tesla, Petrobras e disputa por integração de sistemas

Apesar da vantagem chinesa na fabricação de equipamentos, o leilão não será um jogo de cartas marcadas.

Empresas como Tesla, Petrobras e Axia Energia participaram da consulta pública e avaliam apresentar propostas, especialmente como integradoras de sistemas, responsáveis por combinar hardware, software e controle operacional.

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Ainda assim, mesmo que empresas ocidentais vençam os contratos, a expectativa do setor é que boa parte dos equipamentos venha da China.

Diferentemente dos Estados Unidos e da União Europeia, onde equipamentos chineses são vistos como risco à segurança nacional, o Brasil adota postura mais pragmática.

Baterias não resolvem tudo: gargalo está na transmissão

O armazenamento é apenas parte do problema. A expansão das renováveis avança mais rápido do que a construção de linhas de transmissão, especialmente no Nordeste, maior polo eólico e solar do país.

Esse desequilíbrio já se reflete no bolso. Estimativas apontam perdas de até R$ 7 bilhões por ano com energia limpa desperdiçada, um paradoxo para um país que busca se consolidar como potência verde.

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Chile em chamas expõe o custo da inação climática

Enquanto o Brasil discute como armazenar energia limpa, países vizinhos enfrentam os efeitos mais visíveis do aquecimento global.

No Chile, incêndios florestais já devastaram mais de 62 mil hectares neste verão, mataram ao menos 20 pessoas e forçaram a fuga de dezenas de milhares de moradores.

Há menos de uma década, incêndios dessa magnitude eram raros no país. Em 2017, o Chile registrou seu primeiro megaincêndio.

Em 2024, o fogo deixou 138 mortos em Viña del Mar, no pior desastre desde o terremoto de 2010. Estudos citados por agências como AP e Reuters apontam que ondas de calor mais intensas e uma megasseca iniciada em 2007 criaram condições propícias para tragédias recorrentes.

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Eventos extremos reforçam urgência da transição

Nos Estados Unidos, uma intensa tempestade de inverno associada à instabilidade do vórtice polar colocou em alerta redes elétricas de estados como Texas e Nova York.

Modelos climáticos indicam que o aquecimento global pode enfraquecer esse sistema atmosférico, aumentando a frequência de episódios extremos de frio, um lembrete de que a crise climática não se resume ao aumento das temperaturas.

Entre liderança verde e dependência tecnológica

O leilão brasileiro de baterias sintetiza as contradições da transição energética na América Latina. De um lado, abundância de recursos naturais, energia limpa barata e ambição climática.

De outro, dependência tecnológica externa, infraestrutura deficiente e impactos climáticos cada vez mais severos.

Ao abrir espaço para empresas chinesas em um setor estratégico, o Brasil acelera soluções para problemas imediatos, mas também se insere em uma disputa geopolítica maior, em que energia, clima e tecnologia caminham juntos.



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