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Não há motivos para temer um velho fantasma que costuma assombrar as pessoas à medida em que o tempo avança: a perda de interesse sexual. Quem, garante é o renomado gerontólogo carioca Alexandre Kalache, de 80 anos, o entrevistado para as “Páginas Amarelas”, de VEJA.
Ex-diretor da Organização Mundial da Saúde (OMS) e pesquisador da Universidade de Oxford, Kalache aponta que o etarismo, ou idadismo, um preconceito que o especialista compara em gravidade ao racismo e ao machismo, contribui para a ideia generalizada de diminuição do desejo, mas diz que é possível se abrir para novas experiências..
O médico introduz o conceito de “gerontolescência”, termo que descreve a transição para a velhice como um período de novas descobertas e liberdade. “É o momento em que os indivíduos costumam se libertar de amarras e descobrir uma liberdade que nunca experimentaram antes”, afirma o gerontólogo. “Envelhecemos e continuamos tendo desejo, mas o exercício da vida sexual se transforma. As ideias mais tradicionais sobre como ser feliz na cama são substituídas pelo toque, pelo carinho. As pessoas vão descobrindo aos poucos novos caminhos e se libertando com cada vez mais frequência do pensamento engessado de que sexo é coisa de jovem. Não é um processo fácil.
Para usufruir melhor dessa fase da vida, segundo ele, é preciso estar aberto à mudanças de atitude e derrubar os tabus que ainda rondam o sexo na terceira idade. “Minha geração, na juventude, se trancava no quarto com a namorada, e os pais não sabiam como reagir. Agora somos nós, os velhos, que estamos naquele mesmo quarto. E os netos não sabem o que fazer”.
Para Kalache, a questão é pior para as mulheres. “Quando dão sinais de que mantêm uma rotina sexual ou aparecem com namorado, recebem mais olhares tortos do que os homens. Como se aquilo fosse errado para uma mulher madura. E não acontece só no Brasil, não. Até em países mais avançados, em que os idosos encontraram seu espaço na sociedade há mais tempo, se observa preconceito dessa natureza. O lado bom é que há evolução”, garante.