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Charles Myers, presidente da Signum Global Advisors, consultoria de risco geopolítico sediada em Nova York, passou meses organizando uma comitiva de homens e mulheres de negócios interessados em investir na Venezuela. Bem conectado tanto na Casa Branca quanto no Palácio de Miraflores, Myers percebeu que os Estados Unidos estavam fechando o cerco em torno do presidente Nicolás Maduro e logo começou a prospectar clientes dispostos a correr os riscos necessários para entrar na economia venezuelana. Quando Maduro foi capturado, em 3 de janeiro, o telefone de Myers desandou a tocar. Chamadas dos Estados Unidos, do Reino Unido, da Europa e do Oriente Médio esgotaram as vagas na delegação, e uma lista de espera se formou com empresários dos ramos de óleo e gás, mineração, bancos e fundos de investimento. “A Venezuela precisa ser reconstruída; é uma oportunidade de 500 bilhões de dólares em dez anos”, disse Myers em entrevista a VEJA Negócios.

Poucas semanas após a operação militar que levou Maduro da Venezuela para ser julgado por uma série de crimes em Nova York, ainda é cedo para saber ao certo que rumo o país vai tomar na política e na economia. As incertezas começam por quem permanecerá à frente do governo e pelo grau de envolvimento americano na administração do país. Se o futuro permanece uma incógnita, o presente é claríssimo: a economia do país está em frangalhos. O produto interno bruto (PIB) encolheu 80% de 2013 a 2020 — uma das maiores contrações em tempos de paz da história moderna. Em 2025, o país praticamente não cresceu, a inflação girou em torno de 500% e a depreciação do bolívar chegou a 800%. A infraestrutura financeira é minúscula: o único banco internacional com presença significativa no varejo é o espanhol BBVA, que nem sequer consegue repatriar dividendos devido aos controles de capital. Há muito a ser feito para reerguer a Venezuela.

Onde conseguir dinheiro para bancar uma força-tarefa e tirar o país do buraco? A primeira resposta sempre aponta para debaixo da terra, onde se encontra uma reserva de petróleo que representa um quinto de todo o estoque mundial conhecido. Trata-se de uma riqueza estrangulada por má administração e subinvestimento na infraestrutura de extração, transporte e refino, por um lado, e pelas sanções americanas, por outro. Os Estados Unidos chegaram a apreender navios-tanque que contrabandeavam o produto sob diferentes bandeiras, e a impossibilidade de exportar encheu os tanques nacionais quase até o limite. Se atingissem a capacidade máxima, a produção teria de ser cortada, numa decisão custosa para um país cuja principal fonte de renda é o óleo cru. Graças a um acordo anunciado por Washington para a compra de 30 milhões a 50 milhões de barris, a válvula de escape foi aberta. O preço de mercado será mantido, os estoques serão esvaziados e a Chevron, única petrolífera americana ainda em atuação no país, já despachou onze navios-tanque para serem carregados nos portos venezuelanos.

Refinaria da PDVSA: recuperar a produção de petróleo será o primeiro passo
Refinaria da PDVSA: recuperar a produção de petróleo será o primeiro passo (Betty Laura Zapata/Bloomberg/Getty Images)
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Mas aumentar a produção de petróleo não basta para resolver a grave situação de penúria em que se encontra a população da Venezuela. Mais de 8 milhões de pessoas emigraram em busca de condições melhores de vida desde o início do século. Os indicadores sociais estagnaram ou pioraram: a mortalidade infantil, por exemplo, é a mesma de três décadas atrás, enquanto no Brasil foi reduzida a um terço no mesmo período. O país precisa de emprego, saúde, educação e, por trás disso tudo, de um ambiente saudável para os negócios. Para isso, há um consenso de que sejam estabelecidas três pré-condições: estabilidade política, segurança doméstica e um novo arcabouço regulatório.

Fila atual para comprar comida em Caracas: a escassez é uma constante
Fila atual para comprar comida em Caracas: a escassez é uma constante (Jacinto Oliveros/AFP)

O governo Trump parece buscar justamente a estabilidade ao manter o regime praticamente intocado, a não ser pela cabeça de Maduro. Já as mudanças legislativas podem desestabilizar tudo. Uma nova lei de combustíveis fósseis já foi sugerida pela nova presidente, Delcy Rodríguez, ex-vice de Maduro, mas ninguém sabe como vai se resolver a tensão entre o status quo chavista e o governo americano. Ou mesmo se novas leis serão respeitadas. O presidente da petroleira Exxon, por exemplo, lembrou que os ativos da companhia já foram nacionalizados duas vezes (em 1976 e em 2007), a despeito do que diziam as leis da época, e julgou o país inviável para investimentos.

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Para vencer a desconfiança dos investidores, os analistas recomendam um tratado bilateral com os Estados Unidos, o retorno da Venezuela ao ICSID (o tribunal de arbitragem do Banco Mundial, do qual o país se retirou em 2012) e a restituição de bens expropriados de 1999 para cá, em um gesto tanto simbólico quanto prático. Ainda mais prático seria o governo Trump oferecer garantias aos bancos dispostos a ceder crédito, nos moldes do que o JPMorgan fez em El Salvador, para destravar os primeiros grandes financiamentos. “A Venezuela precisa de instituições fortes, respeito às leis e previsibilidade, mas isso só se conquista com o tempo”, diz Ryan Berg, diretor do programa de Américas no CSIS (Centro de Estudos de Estratégia Internacional, na sigla em inglês). “São necessários gestos grandiosos e firmes, como assinatura de acordos bilaterais e permissão da entrada de fiscais estrangeiros, para demonstrar que a mudança é real.”

Por enquanto, a reação dos atores econômicos é bem diversa quanto à aposta no futuro. Os títulos da dívida venezuelana e da PDVSA, a estatal de petróleo, valorizaram-se entre 35% e 40% nos dias seguintes à queda de Maduro, sinalizando que o mercado vislumbra um cenário favorável para a reestruturação do país. Internamente, porém, houve uma corrida para moedas estrangeiras que levou o dólar paralelo, que fechou 2025 em torno de 500 bolívares, a escalar para até 900 bolívares nos dias que se seguiram à prisão de Maduro. A convergência entre a taxa oficial e a paralela será um termômetro importante da estabilização econômica nos próximos meses.

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Consumidor com notas de bolívar: maços de dinheiro que nada valem
Consumidor com notas de bolívar: maços de dinheiro que nada valem (Carlos Becerra/Bloomberg/Getty Images)

A reconstrução, porém, não será rápida. Rodrigo Naranjo, sócio-diretor do VIPCapital, principal banco de investimento venezuelano, estima que serão necessários “pelo menos um ou dois anos” para que as empresas do país atinjam um valor de mercado acima de 200 milhões de dólares e atraiam os maiores investidores institucionais para Caracas. A produção de petróleo pode aumentar até 50% em doze meses com certa facilidade, mas voltar ao pico de 3,45 milhões de barris por dia alcançado em 1998 (um ano antes de Hugo Chávez chegar ao poder) exigirá muito mais tempo, e o impacto sobre o emprego será gradual. Para os venezuelanos que ficaram, e para os milhões que partiram, a era pós-­Maduro começou. A reconstrução, quando e se vier, será medida em anos, não em meses.

Publicado em VEJA, janeiro de 2026, edição VEJA Negócios nº 22



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