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Dez tiros, um após o outro, desferidos das armas de agentes federais, atingiram à queima-­roupa o enfermeiro americano Alex Pretti, de 37 anos, já imobilizado no chão, em meio a uma manifestação na cidade de Minneapolis, hoje um infeliz cartão-postal da truculência da política anti-imigração do governo Donald Trump. Era sábado 24, e as ruas estavam inundadas de gente que agitava indignadas bandeiras contra o ICE, a temida polícia migratória, que, duas semanas antes, havia abatido outra americana, a poeta Renée Good, alegando, como no caso de Pretti, legítima defesa contra uma “terrorista doméstica” — ambas versões sob investigação, mas que imagens de câmeras que rodaram o mundo, tão difíceis de olhar, contradizem. Até agora, dois policiais foram afastados. E o caldo das insatisfações só engrossou: país afora, milhares de pessoas saíram mesmo sob glaciais temperaturas para protestar, dando voz a um movimento que alcançou um ponto de fervura tal que o próprio presidente Donald Trump achou por bem se mexer para abrandar, porém sem se mover um milímetro em uma promessa de campanha que tomou contornos de cruzada: encabeçar a “maior deportação em massa da história dos Estados Unidos”.

ATÉ CRIANÇA - Liam Conejo, de 5 anos: despachado com o pai para um centro de detenção no Texas
ATÉ CRIANÇA - Liam Conejo, de 5 anos: despachado com o pai para um centro de detenção no Texas (Columbia Heights Public Schools/AFP)

Ao se instalar na Casa Branca, Trump logo deu sinal verde às batidas policiais que miram um problema concreto: a incapacidade de os Estados Unidos absorverem as vastas ondas de imigrantes que cruzam ilegalmente a fronteira (hoje são 11 milhões no país), um gargalo histórico que vem mobilizando todos que assumem o posto, republicanos e democratas. Por isso, a aprovação na largada às medidas para frear o ingresso desses estrangeiros — que drasticamente diminuiu em relação à época do antecessor Joe Biden, quando havia aquelas filas do lado de lá do muro do México — ultrapassava os 60%. Pela primeira vez em meio século, registraram-se em 2025 mais pessoas saindo do que entrando em solo americano, com 540 000 deportações. Para as marchas migratórias de multidões que se deslocam na esperança de vida melhor, o sonho americano virou pesadelo.

Pois os ventos que sopravam a favor de Trump viraram sob o embalo de ações policiais que se transformaram em verdadeira caçada, expandindo-se para além do grupo em situação irregular e com ficha criminal para pôr na mira todo e qualquer sujeito com pinta de que veio de fora, com ou sem documentos. Os policiais fazem sua busca adentrando as casas sem mandado e aparecendo de surpresa até em escolas, onde o índice de faltas subiu em razão do medo. Eis que a maioria dos americanos (58%) acha agora que Trump perdeu a mão — um número recém-saído do forno e que provavelmente contou na consideração de tirar de cena o homem que chefiava a operação no estado de Minnesota, Gregory Bovino, símbolo-mor dos excessos, e na ligação que o presidente fez para Tim Walz, o governador que disputou a Vice-Presidência na chapa democrata de Kamala Harris, a quem não cansa de desdenhar. “Estamos em sintonia”, amaciou Trump, que acenou com a retirada de uma parcela dos 3 000 agentes em campo. Especialistas dizem que o presidente faz contas. “Trump agiu porque se preocupa em perder as eleições de meio de mandato que estão logo ali, mas sua política não vai mudar”, afirmou a VEJA o cientista político Terry Moe, da Universidade Stanford.

VÍTIMA - Homenagem a Pretti: abatido pelos agentes por “terrorismo doméstico”
VÍTIMA - Homenagem a Pretti: abatido pelos agentes por “terrorismo doméstico” (Octavio Jones/AFP)
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No cotidiano de quem não tem passaporte americano, não importa o degrau em que esteja no demorado processo migratório, o temor de ser pego é permanente, insuflado por cartazes e mensagens na TV conclamando a população a denunciar “imigrantes suspeitos”. Muitos passaram a sair a conta-gotas de casa, só para o que é realmente urgente. Vizinhos às vezes se ajudam, fazendo o supermercado um para o outro, e usam até apito para informar que o pessoal do ICE está na área. Nem crianças são poupadas — capturado junto com o pai, o menininho equatoriano Liam Conejo, de 5 anos, sensibilizou o mundo ao ser despachado de Minnesota para um centro de detenção no Texas, longe da mãe. Eles estavam no meio dos trâmites para poder ficar no país e, ao menos por ora, conseguiram na Justiça evitar a deportação.

A vida à sombra do medo passou a ser a árida realidade de muitos dos 2 milhões de brasileiros que residem hoje nos Estados Unidos, uma porção significativa egressa da mineira Governador Valadares, apelidada de “Valadólares”. Ali, 82% dos domicílios registram pelo menos um morador que já cruzou a fronteira americana e não voltou, segundo o IBGE. No último ano, mais de 3 000 brasileiros foram deportados, de acordo com o Itamaraty, um aumento de quase 100% em relação a 2024. Na chamada Little Brazil, bairro em que se concentram em Boston, cidade onde são 400 000 (maioria entre os imigrantes), a reportagem de VEJA observou que qualquer um que pareça suspeito aos olhos do ICE é abordado. Às vezes são liberados, noutras têm o sonho interrompido pelas crescentes armadilhas do sistema.

UM DURO ADEUS - Depois de duas décadas morando em Boston com a família, Frilei Brás, 39 anos, foi surpreendido com a ordem de retornar ao Brasil, mesmo tendo autorização de trabalho e até um clube de futebol. “Foi profundamente triste”, conta ele, já no Brasil, ao lado da mulher e de cinco dos seis filhos.
UM DURO ADEUS – Depois de duas décadas morando em Boston com a família, Frilei Brás, 39 anos, foi surpreendido com a ordem de retornar ao Brasil, mesmo tendo autorização de trabalho e até um clube de futebol. “Foi profundamente triste”, conta ele, já no Brasil, ao lado da mulher e de cinco dos seis filhos. (./Arquivo pessoal)
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Ao comparecer a uma das inúmeras audiências de praxe para regularizar sua situação, em junho passado, o mineiro Frilei Brás, 39 anos, saiu com uma tornozeleira eletrônica e o prazo de quinze dias para deixar o país. “Foi profundamente triste ser arrancado do lugar onde vivi por duas décadas. Minha família ficou destruída”, relatou ele, que tinha autorização de trabalho, carteira de seguro social (similar ao CPF) e era um dos fundadores do popular Boston Athletic Soccer Club. Sua ficha é intocável: recolhia impostos e nunca havia se envolvido em atividade criminosa. De nada adiantou. Em outubro, regressou com os cinco filhos e a mulher, deixando apenas a mais velha por lá, para terminar a universidade. “Passamos a travar uma guerra em prol dos brasileiros”, conta Kelly Fontoura, à frente da ONG Imigra Foundation.

Ao conversar com VEJA, a maior parte, que prefere não dar o nome, revela estratégias variadas de sobrevivência diante do aperto do cerco que se forma ao seu redor, entre as quais não falar inglês em público, para esconder o sotaque, e até se vestir como americano típico. Alguns começaram a usar drones antes de sair de casa para se certificar de que não há patrulhas do ICE nas imediações. Multiplicam-se redes de cidadãos que atuam como “observadores” da hoje mais poderosa força policial nos Estados Unidos, dona de orçamento e quadro de pessoal em alta e uma meta: 3 000 prisões por dia. A turma que faz a ronda para proteger os vizinhos fica atenta para registrar no celular eventuais violações e abusos da tropa federal. As escolhas humanas nesse cenário são de uma crueza atroz, como tristemente ilustra a história de Sara Pereira, 34, que há dois anos havia trocado o Brasil por Boston ao lado do marido, Deivisson. O projeto foi abruptamente interrompido por uma ida ao tribunal para resolver a pendenga de uma multa de trânsito, que virou um caso de imigração irregular e levou à deportação. Entraram na Justiça, mas, para não se separarem, voltaram juntos a Belo Horizonte, com o filho pequeno, que havia nascido americano. “Não queria por nada dividir a família”, diz Sara.

“DESISTI DA AMÉRICA” - A mineira Sara Pereira, 34, tomou um susto ao saber que o marido, Deivisson, havia ido ao tribunal por causa de uma multa de trânsito e saiu de lá com a ordem de ir embora. Estavam há dois anos nos EUA, onde tiveram um filho. “Não quis ficar sem meu marido”, conta ela, agora feliz com a volta.
“DESISTI DA AMÉRICA” – A mineira Sara Pereira, 34, tomou um susto ao saber que o marido, Deivisson, havia ido ao tribunal por causa de uma multa de trânsito e saiu de lá com a ordem de ir embora. Estavam há dois anos nos EUA, onde tiveram um filho. “Não quis ficar sem meu marido”, conta ela, agora feliz com a volta. (./Arquivo pessoal)
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Em sua toada, Trump tem como alvo estados democratas, como Minnesota, onde justifica estar agindo para supostamente defender o estado da numerosa comunidade somali (“um lixo, gente sem QI”), apenas porque uns poucos integrantes se enredaram em um caso de corrupção local. “Ele acredita que se fortalece com a teatralidade das operações, mas não está acontecendo”, avalia o sociólogo Ernesto Castañeda, da American University, em Washing­ton D.C. O arquiteto da política de caça aos imigrantes, Stephen Miller, a definiu como “uma luta para salvar a civilização”, conferindo-lhe uma moldura ideológica que ainda entusiasma a base trumpista raiz, mas começa a afastar republicanos moderados e espantar eleitores hispânicos. Nunca tantos cubanos que tinham sido tão bem acolhidos em estados como a Flórida, desfrutando inclusive do status de exilados, foram devolvidos à ilha de onde escaparam para fugir do regime castrista, que, ironicamente, os Estados Unidos execram.

Em mais um lance que dificulta a vida de quem ainda cultiva planos de tentar a sorte nos Estados Unidos, o governo suspendeu a emissão de vistos de imigração para 75 países, entre eles o Brasil. “É um retrocesso para uma nação construída por imigrantes, além de um fracasso moral e um baque na economia”, afirma a advogada Anna Law, da Brooklyn College. Quem por lá já está procura ajuda da Justiça, mas tudo vem caminhando a passos lentos. A brasileira Maria, 27 anos, que pediu para ter o nome trocado, foi separada da família no ano passado sem nem conseguir se despedir da filha de pouco mais de 1 ano. Estava em uma etapa do processo para obter autorização de permanência quando foi transferida de Nova Jersey para o Texas. Há meses aguarda uma audiência, marcada agora para a próxima semana. Como tantos, torce para que o sonho não vire pesadelo.

Publicado em VEJA de 30 de janeiro de 2026, edição nº 2980



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