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Donald Trump está agindo com cabeça fria – ao contrário das reações histéricas da imprensa antitrumpista. Usou até a palavra “desescalar” em relação a Minneapolis. O ambiente de confronto criado na cidade depois da morte de dois manifestantes precisava ter a temperatura abaixada e o presidente fez isso ao afastar uma das personalidades mais destemperadas do lado das forças da lei, Gregory Bovino, que deixa o posto de “comandante plenipotenciário”. Ele também tem falado com as duas autoridades administrativas mais inflamadas, o governador em fim de carreira Tim Waltz e o prefeito Jacob Frey. Não é impossível que até a secretária da Segurança Interna, Kristi Noem, perca o cargo.
Todas as partes erraram nos recentes confrontos que resultaram na morte de duas pessoas, Renee Good e Alex Pretti. Ela não atendeu a ordem de parar e abrir a porta do SUV com o qual tentava impedir veículos do ICE de avançar numa operação para pegar clandestinos. Preferiu arrancar com o carro, como sua companheira aconselhara. Pretti também cometeu a insanidade de ir armado para uma situação de confronto com os agentes provocada por ele.
Mas o fato é que quem tem as armas maiores – os agentes da lei – também tem responsabilidade equivalente. É fácil falar isso do conforto de quem vê os vídeos no computador, e não do calor dos acontecimentos no momento, mas os agentes envolvidos, além de uma eventual responsabilização criminal, também prejudicaram toda a instituição. Cada morte é uma derrota política.
Talvez tenha um lado de prejuízo bom: as ações muito violentas contra imigrantes ilegais acabam tirando a razão dos que estão fazendo a lei ser cumprida e provocam repúdio na opinião pública. Usar o rosto coberto em operações de rua também é contra a tradição americana. Trump está fazendo exatamente o que prometeu, prevenir os ilegais de entrar e deportar os que já entraram irregularmente, mas o excesso de força estava comprometendo não apenas a imagem dos agentes do ICE, mas também a de todo o governo.
AÇÕES POLÍTICAS EM QUEDA
Não interessa se os manifestantes são altamente agressivos, com treinamento para provocar e impedir as ações do ICE. Chamá-los de “terroristas domésticos”, como fez Kristi Noem, é irresponsável e compromete até os futuros processos. O certo é fazer o que fez Trump. “Estamos analisando tudo e vamos chegar a uma determinação”, disse ele, evitando defender as declarações de Noem, o que fez as ações políticas dela caírem na eterna avaliação de quem está forte ou fraco no gabinete presidencial. Também rejeitou a palavra “assassino” em relação a Alex Pretti, ao contrário do que havia feito seu vice, JD Vance.
Kristi Noem, conhecida pelo alto nível de produção com que comparece a operações ao lado de agentes do ICE – cabelos cacheados na escova e com mechas artificiais, muita maquiagem e cílios postiços, além de Rolex no pulso, o que valeu o apelido dado pela oposição “Barbie do ICE” -, talvez não tenha se dado conta de que as percepções públicas mudaram e Trump está assumindo uma posição mais equilibrada. Talvez ela tenha sido influenciada pelo companheiro, Corey Lewandowski, um trumpista de primeira hora que a acompanha em múltiplos compromissos oficiais, outra atitude indevida da secretária.
A repressão à imigração ilegal funcionou espetacularmente, correspondendo a um desejo majoritário da opinião pública. Todas as pessoas normais comemoram quando foram pegos criminosos responsáveis por atos hediondos, inclusive abuso sexual de menores, um crime que a imigração clandestina favorece por deixar meninas vulneráveis em situação mais exposta ainda. Também são execráveis os casos em que estrangeiros clandestinos estupraram e assassinaram jovens americanas, em atos chocantes que o Partido Democrata comete a tolice de ignorar.
Ninguém quer ver isso em seu próprio país. Mas muitos americanos também identificam os detidos pelo ICE que só estão procurando uma vida melhor e não deveriam ser maltratados por terem cruzado a fronteira ilegalmente em busca disso. São pessoas que trabalham, têm família, seguem a lei, mesmo com a origem clandestina de sua entrada no país. Segundo a mais recente pesquisa, 53% dos americanos desaprovam a política de Trump para imigração, contra apenas 39% que aprovam, uma total inversão dos resultados iniciais.
Até um trumpista apaixonado como o apresentador Sean Hannity disse que “não é uma boa ideia” fazer batidas no estacionamento de lojas da rede de materiais de construção Home Depot, onde muitos imigrantes se congregam esperando ser contratados para serviços temporários como pedreiros, pintores e similares. “Quem está trabalhando num lugar não é o problema imediato”, argumentou, numa guinada impressionante, sinal de como as opiniões estão mudando.
EVITAR PROVOCAÇÕES
Os maiores responsáveis por essa situação são os líderes como o presidente Joe Biden que praticamente instauraram um regime de fronteira aberta com o México, atraindo gente do mundo inteiro, aos milhões e milhões, e provocando a revolta calada de muitos americanos, que votaram em Trump para dar um jeito nesse abuso em massa.
Um abuso não pode provocar o seu oposto, com sinal trocado, e instigar defensores de excessos como o agora afastado Gregory Bovino, com sua estética autoritária e encenações de agressividade e não de um imparcial cumprimento da lei. Trump não está recuando: mandou para o lugar do policial afastado o “czar da fronteira”, Tom Homan, um tipo que parece comer mel e cuspir abelha, daqueles com cara de personagem de filme no papel do durão-mor (só para lembrar, ele também trabalhou na deportação de clandestinos durante o governo de Barack Obama).
É importante não deixar a situação em Minneapolis se deteriorar e evitar as provocações absurdas de autoridades como o governador Tim Waltz – um motivo a mais para que os americanos fiquem aliviados por não terem dado a vitória a Kamala Harris, que havia escolhido Waltz como candidato a vice, por imaginar que representava bem os eleitores brancos de centro ou centro-direita.
Na verdade, os ataques em massa dele ao governo federal foram atos agressivos que pioraram uma situação já perigosa. Trump está tendo a cabeça fria de não reagir nos mesmos termos.
FALA O CORAÇÃO?
Quem imaginaria isso, Trump como inesperado bombeiro e não incendiário? É uma atitude que conta pontos a favor dele, embora a oposição jamais vá reconhecer isso. O Wall Street Journal publicou um editorial dizendo que a morte de manifestantes, mesmo em condições complexas, estava se tornando “um debacle moral e político” para o governo Trump.
Perceber isso foi um ato de autopreservação de Trump – lembrando que muitos outros que se consideraram supremas raposas políticas frequentemente falham em ver que as coisas estão ruins para o lado deles e em mudar de direção. Excepcionalmente, Melania Trump também falou sobre o assunto, pedindo união e manifestações pacíficas, além de elogiar os contatos do marido com o governador Waltz e o prefeito Frey – um raro caso em que a mulher do presidente trata de questões políticas.
“Os americanos não querem ver agentes da lei atirando em pessoas na rua ou prendendo meninos de cinco anos de idade”, escreveu o Wall Street Journal, lembrando que, numa entrevista ao jornal, Trump havia falado no lado emocional, “do coração”, sobre a separação de famílias na deportação de clandestinos. Agora, o coração falou – e a cabeça também.
Se conseguirá efetivamente baixar a temperatura já é outra questão, pois os elementos mais radicais estão vendo a vantagem de continuar com manifestações agressivas para provocar os agentes do ICE a perder o controle. Tudo o que não pode acontecer numa situação dessas é a polícia perder o controle e acabar fazendo o jogo dos provocadores. Essa deve ser uma das maiores prioridades de Tom Homan no inesperado papel de enviado de Trump para apaziguar os ânimos.