O Irã vive um dos momentos mais desafiadores desde a Revolução Islâmica de 1979, com manifestações populares sendo brutalmente reprimidas pelo regime dos aiatolás. O que começou como protestos contra a inflação se transformou em um amplo movimento de insatisfação social que coloca em xeque a estabilidade do governo.

Durante o Fora da Ordem, o videocast de geopolítica da CNN Brasil, o analista sênior de Internacional, Américo Martins, afirmou que “o Irã nunca esteve tão fraco” desde a revolução que instaurou o atual regime.

A repressão aos protestos tem sido intensa e violenta, resultando em um número indeterminado de mortos e milhares de prisões. O apagão da internet no país, que já dura mais de uma semana, dificulta a confirmação de informações sobre o real número de vítimas, com estimativas variando de dois mil a mais de dez mil mortos.

Crise econômica e embargo internacional

Um dos fatores centrais para a atual crise iraniana é a deterioração econômica. O país enfrenta alta inflação e severa desvalorização da moeda nacional, o rial, que perdeu 56% de seu valor em apenas seis meses. O crescimento econômico está praticamente estagnado, em apenas 0,6% ao ano.

Américo Martins destaca que, embora existam problemas estruturais e corrupção na economia iraniana, o principal responsável pela crise é o embargo internacional que “vem ficando cada vez pior”. As sanções impostas pelos Estados Unidos e outros países ocidentais têm sufocado a economia iraniana, sem que o regime consiga encontrar soluções para contornar essas restrições.

Enfraquecimento geopolítico

O analista aponta que o enfraquecimento do Irã não se limita ao cenário interno. No âmbito externo, o país perdeu considerável poder e influência no Oriente Médio. Pela primeira vez, o Irã entrou em conflito direto com Israel e, segundo o especialista, claramente perdeu essa disputa.

“Israel conseguiu matar líderes do Irã dentro do Irã. A inteligência israelense conseguiu se infiltrar pela primeira vez profundamente na hierarquia iraniana”, explica Martins. Além disso, aliados tradicionais do regime iraniano na região, como o Hamas, o Hezbollah e o regime de Bashar al-Assad na Síria, sofreram derrotas significativas, reduzindo a capacidade de projeção de poder do país persa.

A situação se agrava com a morte de vários líderes de alto escalão iraniano em conflitos recentes. Embora o líder supremo Ali Khamenei permaneça no poder, o país perdeu importantes figuras militares e políticas, enfraquecendo ainda mais sua posição.

O cenário é agravado pela presença de interesses internacionais conflitantes na região. Rússia e China mantêm relações estratégicas com o Irã – a primeira como fornecedora de armamentos e a segunda como importadora de petróleo iraniano. Enquanto isso, os Estados Unidos acabam de impor novas sanções ao país, o que deve intensificar ainda mais a crise econômica.

Apesar da repressão ter momentaneamente contido os protestos, especialistas acreditam que a insatisfação social continuará latente. Com uma infraestrutura combalida, incluindo represas que abastecem a capital Teerã operando com apenas 11% da capacidade, e uma oposição fragmentada, o futuro do regime iraniano permanece incerto, mas com desafios sem precedentes em sua história recente.



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