
Na decisão de 32 páginas em que autorizou a operação da Polícia Federal contra uma ex-assessora de Arthur Lira, o ministro Flávio Dino junta depoimentos de parlamentares que denunciaram “indícios de execução irregular de emendas ao orçamento da União”.
Um dos depoimentos é do deputado Glauber Braga, que narra uma conversa dele com outro colega, o deputado José Rocha, sobre supostas pressões de Lira para a liberação de verbas do orçamento secreto quando o alagoano ainda estava na presidência da Câmara.
Glauber disse que ouviu de Rocha, que comandava uma comissão responsável por liberar verbas de emendas ao Ministério da Integração, que Lira ligou pessoalmente ao parlamentar, quando este se recusou a assinar repasses milionários para Alagoas de forma irregular, sem identificar quem eram os autores, quais eram os objetos e quais seriam os beneficiários da montanha de dinheiro.
“Ele (José Rocha) recebeu uma lista para que aquelas emendas fossem executadas, liberadas, para que ele fizesse o encaminhamento dessa listagem de liberação. E essa lista modificava o entendimento original dos outros parlamentares da comissão e inclusive do próprio José Rocha, porque priorizava o Estado do Arthur Lira, Alagoas, e as demandas políticas dele. E que ele então não executou. Ele não fez esse movimento. E ao não fazer esse movimento, ele recebeu uma ligação do Arthur
Lira, perguntando por que ele não tinha feito”, disse Glauber Braga em depoimento.
Ainda segundo a versão de Glauber, Rocha narrou que respondeu a Lira que não havia liberado as verbas porque a forma desejada pelo então presidente da Câmara era irregular. Insatisfeito com a negativa, Lira teria reagido:
“Então eu posso dar um voto de desconfiança a você na comissão, né?”, teria dito Lira a Rocha, segundo o depoimento de Glauber.
Rocha não se intimidou diante da ameaça. “Lira eu respeito muito o seu pai, mas não posso dizer a mesma coisa em relação a você, a partir dessa ameaça”, teria dito Rocha a Lira, segundo Glauber.
A conversa teria terminado aí, mas não teria impedido Lira de realizar movimentos, segundo o depoimento, para forçar a liberação das verbas.
Rocha também prestou depoimento para a Polícia Federal e narrou sua versão da história.
“Chegou um pedido de liberação de uma remessa de 320 milhões de reais para Alagoas. A terra do presidente da Câmara dos Deputados. Eu segurei o envio para o ministério, questionando que eu precisava saber que destinação teriam esses recursos. E quais seriam os beneficiários? Quais seriam os autores? Aí o presidente me liga, me liga dizendo que eu estava criando problema”, disse Rocha, confirmando a versão de Glauber.
Citado 24 vezes na decisão de Dino, Arthur Lira não foi alvo da ação desta sexta-feira, que mirou apenas na servidora Mariângila Fialek, a Tuca, espécie de governanta das emendas parlamentares do orçamento secreto na Câmara.