
Os Estados Unidos registraram a segunda primavera mais quente da história do país, segundo dados divulgados nesta segunda-feira, 8, pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA). Às vésperas da Copa do Mundo de 2026, que começa na quinta-feira, 11, o recorde reforça as preocupações com as condições de calor que atletas e torcedores poderão enfrentar durante o torneio.
Uma nova análise da iniciativa World Weather Attribution, colaboração acadêmica que reúne pesquisadores de grandes institutos climáticos do mundo, estima que uma a cada quatro partidas do Mundial — totalizando 26 das 104 partidas – deve ocorrer sob níveis de calor e umidade capazes de elevar o risco de estresse térmico para os atletas. Em cinco delas, as condições podem ultrapassar o limite considerado perigoso para a prática esportiva.
O estudo concluiu que condições perigosas de calor durante partidas de futebol são hoje quase duas vezes mais prováveis do que eram quando os Estados Unidos sediaram a Copa de 1994. Os pesquisadores utilizaram o índice Wet Bulb Globe Temperature (WBGT), que considera fatores como temperatura, umidade, radiação solar e vento para medir o impacto do calor sobre o corpo humano.
Pelos critérios adotados no estudo, índices acima de 26°C já representam risco para atletas, enquanto valores superiores a 28°C são considerados inseguros para a prática esportiva.
A competição ocorrerá nos Estados Unidos, México e Canadá em junho e julho, justamente durante o período mais quente do ano no Hemisfério Norte.
Impactos dentro e fora de campo
O calor excessivo pode afetar diretamente o desempenho dos jogadores. Temperaturas elevadas aumentam o risco de desidratação, dificultam a recuperação física entre esforços intensos e podem comprometer a tomada de decisões durante as partidas. Em situações extremas, há risco de exaustão pelo calor e insolação.
Segundo a Organização das Nações Unidas, as condições climáticas também tendem a alterar a dinâmica do jogo. Com temperaturas mais altas, a tendência é de partidas menos intensas, com maior desgaste físico e menor capacidade de pressão e aceleração por parte dos atletas.
Os torcedores também estão entre os grupos mais vulneráveis. Diferentemente dos jogadores, que contam com equipes médicas e protocolos específicos de hidratação, muitos espectadores passam horas expostos ao sol em filas, áreas de circulação e arquibancadas. Dos 16 estádios que receberão partidas da Copa de 2026, apenas três contam com sistemas completos de climatização.
Diante das preocupações, a Fifa anunciou medidas para reduzir os impactos do calor durante o torneio. Entre elas estão pausas obrigatórias de três minutos para hidratação na metade de cada tempo, independentemente das condições meteorológicas.
Mudanças climáticas
A discussão remete ao que ocorreu antes da Copa do Mundo de 2022, no Catar. Na ocasião, o torneio foi transferido de junho e julho para novembro e dezembro devido ao calor extremo do país do Oriente Médio, marcando a primeira mudança desse tipo na história da competição.
O alerta também foi reforçado pela Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), principal órgão da ONU para o tema. Segundo a entidade, o aumento das temperaturas provocado pela queima de combustíveis fósseis está alterando as condições de realização de grandes eventos esportivos e pode afetar diretamente a Copa de 2026.
“Precisamos agir mais rapidamente para proteger o esporte que amamos e todos que o assistem”, afirmou Simon Stiell, secretário-executivo da UNFCCC.