Medicamentos conhecidos por serem usados para emagrecimento foram associados a uma menor incidência de cânceres relacionados à obesidade em pessoas sem diabetes. A conclusão é de um estudo publicado na revista científica “Annals of Oncology”.
A pesquisa analisou dados de 229.467 adultos obesos e sem diabetes nos Estados Unidos e identificou que pacientes tratados com medicamentos da classe dos agonistas do receptor de GLP-1 — grupo que inclui a semaglutida e a tirzepatida, princípios ativos de medicamentos como Ozempic e Mounjaro — apresentaram risco significativamente menor de desenvolver tumores associados à obesidade em comparação com pessoas que receberam apenas orientação para dieta e exercícios físicos.
Segundo os pesquisadores, esta é a primeira investigação a avaliar exclusivamente a relação entre o uso desses medicamentos e o risco de câncer em pessoas obesas sem diabetes, população que vem impulsionando o crescimento global dessas terapias para perda de peso.
Como o estudo foi realizado
Os pesquisadores utilizaram a base de dados TriNetX, que reúne informações de aproximadamente 113 milhões de pacientes dos Estados Unidos.
Foram selecionados adultos com índice de massa corporal (IMC) igual ou superior a 30, sem diagnóstico prévio de câncer relacionado à obesidade e sem diabetes. Os dados analisados abrangem o período entre dezembro de 2014 e junho de 2025. Do total de participantes, 86.422 utilizaram medicamentos da classe GLP-1 para controle do peso, enquanto 143.045 receberam apenas aconselhamento para dieta ou exercícios físicos.
Para reduzir possíveis diferenças entre os grupos, os cientistas realizaram um pareamento estatístico que resultou em duas populações equivalentes, cada uma com 80.899 pacientes.
A idade média dos participantes era de 47 anos e o acompanhamento ocorreu por um período mediano de dois anos.
Redução de 41% no risco relativo
Após a análise dos dados, os pesquisadores observaram que os usuários de GLP-1 apresentaram uma incidência significativamente menor de cânceres relacionados à obesidade.
O estudo encontrou um hazard ratio de 0,59. Na prática, isso significa que o grupo tratado com agonistas de GLP-1 apresentou um risco relativo cerca de 41% menor de desenvolver esses tumores durante o período de acompanhamento quando comparado ao grupo que recebeu apenas orientações de estilo de vida.
A associação favorável foi observada em praticamente todos os subgrupos analisados, incluindo homens, mulheres e pessoas com diferentes graus de obesidade. Os resultados também permaneceram consistentes quando os pesquisadores aplicaram métodos estatísticos adicionais para validar as conclusões.
O que são os cânceres associados à obesidade
A obesidade é considerada um dos principais fatores de risco para diversos tipos de câncer. Atualmente, especialistas reconhecem ao menos 13 tumores relacionados ao excesso de peso corporal, entre eles os cânceres de mama pós-menopausa, endométrio, cólon e reto, esôfago, fígado, rim, pâncreas, ovário e tireoide.
Com o crescimento da obesidade em todo o mundo, médicos e pesquisadores buscam compreender se tratamentos que promovem perda de peso também podem contribuir para reduzir o risco dessas doenças.
Os agonistas de GLP-1 foram desenvolvidos inicialmente para o tratamento do diabetes tipo 2, mas passaram a ser amplamente utilizados contra a obesidade devido à sua capacidade de reduzir o apetite, aumentar a sensação de saciedade e favorecer a perda significativa de peso. Dados citados no estudo mostram que, apenas nos Estados Unidos, o número de pessoas obesas sem diabetes que utilizavam agonistas de GLP-1 aumentou de cerca de 21 mil em 2019 para mais de 174 mil em 2023.
Semaglutida e tirzepatida
Os autores também avaliaram os efeitos de diferentes medicamentos da classe, incluindo semaglutida e tirzepatida, que atualmente estão entre os tratamentos mais utilizados para perda de peso.
Entre os medicamentos mais conhecidos estão o Ozempic e o Wegovy, ambos à base de semaglutida e produzidos pela Novo Nordisk. Outra medicação que ganhou destaque recentemente é o Mounjaro, da Eli Lilly. Diferentemente da semaglutida, a tirzepatida atua simultaneamente nos receptores dos hormônios GLP-1 e GIP, mecanismo que pode potencializar os efeitos sobre a perda de peso.
O estudo avaliou especificamente usuários de semaglutida e tirzepatida e constatou que a associação com menor incidência de cânceres relacionados à obesidade foi observada em ambos os grupos.
Os resultados sugerem que o benefício observado não está restrito a um único fármaco, mas pode estar relacionado ao mecanismo de ação compartilhado pelos agonistas do receptor de GLP-1.
O que pode explicar a associação
Os pesquisadores apontam duas hipóteses principais para explicar os resultados.
A primeira é a própria perda de peso promovida pelos medicamentos. A redução da gordura corporal pode diminuir processos inflamatórios crônicos e alterações hormonais que favorecem o desenvolvimento de tumores. A segunda hipótese envolve um possível efeito biológico direto dos agonistas de GLP-1. Estudos laboratoriais anteriores já indicaram que a ativação dos receptores de GLP-1 pode reduzir a proliferação e a sobrevivência de determinadas células cancerígenas.
No entanto, os autores ressaltam que ainda não é possível afirmar qual desses mecanismos tem maior influência nem se ambos atuam simultaneamente.
Pesquisa não comprova causa e efeito
Apesar dos resultados considerados promissores, os próprios pesquisadores destacam que o estudo não prova que os medicamentos previnem câncer.
Isso ocorre porque a análise foi baseada em registros médicos reais e não em um ensaio clínico randomizado, considerado o padrão-ouro para estabelecer relações de causa e efeito. Além disso, o período de acompanhamento foi relativamente curto. Como muitos cânceres levam anos para se desenvolver, especialistas afirmam que serão necessários estudos prospectivos com acompanhamento mais longo para confirmar se a redução observada representa um efeito causal dos medicamentos.
“Ensaios prospectivos são necessários para confirmar a causalidade”, destacam os autores na conclusão.
Os autores concluem que os resultados reforçam a necessidade de estudos clínicos específicos para investigar se os agonistas de GLP-1 podem, além de promover perda de peso, contribuir para a prevenção de cânceres relacionados à obesidade.