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A notícia de que a delegação do Irã terá que entrar e sair dos Estados Unidos no mesmo dia de seus jogos, sem direito a pernoitar no país, gerou revolta entre os iranianos por ser percebida como desrespeitosa, e antidesportiva por torcedores do mundo inteiro. A regra, afinal, não se aplica a nenhum adversário, o que configura desigualdade de condições.

O time enfrenta a Nova Zelândia no dia 15 e a Bélgica no dia 21 de junho, ambos em Los Angeles, e o Egito no dia 26, em Seattle. 

A imposição de última hora não surpreendeu, no entanto, os envolvidos na última – e única – visita da seleção iraniana aos Estados Unidos. Em 5 de janeiro de 2000, a delegação persa embarcou para uma série de amistosos no país contra México, Equador e, a cereja do bolo, uma partida contra os anfitriões no histórico Rose Bowl, palco da final da Copa do Mundo de 1994.

A excursão foi um sucesso, com jogos cheios e nenhum incidente real preocupante, apesar de o FBI ter informado à Federação Iraniana de que havia uma ameaça de morte a seu presidente, Mohsen Safaei Farahani, caso o time entrasse em campo. Segundo a polícia americana, um grupo radical exigia a retirada de qualquer propaganda de marcas de cerveja do estádio, mas a partida aconteceu normalmente com propaganda e farto consumo de álcool nas arquibancadas. No placar, 1 a 1.

O caminho até o jogo, porém, não teve nada de normal, e a excursão quase não aconteceu graças a um incidente justamente no aeroporto, quando a delegação quase foi impedida de entrar.Desde o rompimento das relações entre os dois países após a Revolução Islâmica de 1979, o governo americano exigia que cidadãos iranianos fossem fotografados e tivessem suas impressões digitais coletadas ao entrar nos Estados Unidos. Estamos falando de um mundo pré atentado de 11 de setembro de 2001, quando o protocolo de entrada nos Estados Unidos era muito mais simples do que hoje.

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Para os iranianos, a prática era humilhante, vista como um tratamento de suspeito, não de visitante. E era mesmo, pois era o único país que passava por isso. A federação iraniana, então, foi taxativa: só faria a excursão se a delegação fosse isentada da prática. E a condição foi incluída no próprio contrato.

Thom Meredith, diretor de eventos do US Soccer, equivalente à nossa CBF, passou meses tentando arrancar uma isenção do governo americano. O pedido subiu a cadeia de comando do Departamento de Estado até chegar, segundo pessoas envolvidas na negociação, à secretária de Estado Madeleine Albright. Depois de semanas de silêncio, em dezembro chegou a resposta: negado. A federação iraniana, furiosa, declarou que não embarcaria.

E o governo cedeu. Meredith recebeu uma carta oficial, sem qualquer explicação pela mudança de postura, garantindo que os jogadores não seriam fotografados nem teriam suas digitais coletadas. O dirigente voou imediatamente a Frankfurt, onde a delegação iraniana faria conexão, para receber o grupo e providenciar os vistos na embaixada americana local. Checou os documentos “umas 600 vezes”, como ele próprio contou anos depois. E, no caminho, ainda teve que sacar o cartão de crédito pessoal para pagar cerca de 13 mil dólares em passagens que haviam ficado em aberto — seu cartão corporativo não tinha limite suficiente.

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Ao desembarcarem em Chicago, porém, jogadores e comissão técnica foram conduzidos por um corredor especial da alfândega, e se depararam com um agente de imigração mal encarado. Sem cerimônia, ele abriu o carimbo de tinta e pediu as impressões digitais. Farahani, presidente da federação, perdeu a compostura: “Você mentiu para mim! Vocês mentiram para nós!”. Meredith sacou uma cópia da correspondência de isenção com o carimbo oficial, e a carteirada funcionou. A delegação conseguiu entrar na América.

O resto foi festa. No Rose Bowl, diante de 50 mil pessoas — a maioria da vasta comunidade iraniana do sul da Califórnia, que chegou com tambores e buzinas, o jogo terminou em 1 a 1. Os jogadores trocaram camisas, se abraçaram, e o capitão iraniano Javad Zarinche resumiu o espírito daqueles dias: “Espero que o esporte possa ser um elo para unir os povos do mundo.”

Vinte e seis anos depois, a tensão se repete. Comissão técnica e jogadores conseguiram vistos, mas membros da delegação foram negados. Em um caso não relacionado, um jogador do Iraque foi detido e interrogado por sete horas no mesmo aeroporto de Chicago, no sábado, antes de ser liberado para entrar no país. Será que o Irã conseguirá chegar a tempo para seus compromissos? A tensão só vai se dissipar no dia da estreia, 15 de junho.



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