O mercado livre de energia é o ambiente mais sofisticado do setor elétrico brasileiro. E está sendo tratado como se fosse o mais frágil. Essa contradição tem custo: enquanto o debate público confunde crise localizada com colapso sistêmico, o crédito fecha para empresas que nunca honraram um contrato. Para entender o que aconteceu, é preciso voltar ao momento em que tudo funcionava.
Vetor 1: venda a descoberto num mercado que secou
Por anos, uma prática comum no mercado livre funcionou sem problemas: comercializadoras vendiam energia a clientes sem estar previamente compradas, apostando em cobrir essa posição no mercado spot ou em contratos bilaterais. A lógica era simples: havia liquidez suficiente e quem precisava comprar encontrava quem precisava vender.
Esse equilíbrio começou a se romper em 2024. Eventos do setor aumentaram a aversão ao risco. O mercado ficou mais cauteloso e quem precisava comprar passou a encontrar menos contrapartes.
E então aconteceu algo que ninguém havia visto nessa magnitude no Brasil. Grandes geradores passaram a liquidar sua energia diretamente na CCEE, sem comercializá-la bilateralmente. O volume chegou a representar quase 10% do consumo total do país.
A regra existe por uma razão legítima: todo agente precisa estar 100% comprado, mas não há obrigação de estar 100% vendido. Ninguém havia usado essa assimetria nessa escala antes.
As comercializadoras que estavam vendidas sem estar compradas foram buscar cobertura num mercado que havia secado por dois lados. Não encontraram o que precisavam. O resultado foi uma combinação que nenhum modelo de risco havia antecipado.
Vetor 2: modulação solar sem onde zerar
Enquanto isso, um segundo problema se desenvolvia em paralelo, de natureza completamente diferente.
A expansão acelerada da geração solar criou um perfil específico: muita energia nas horas centrais do dia, nenhuma à noite, pouca nos momentos de pico vespertino. Comercializadoras que assumiram contratos com geração solar precisavam equilibrar essa diferença entre o ritmo de geração e o de consumo dos clientes.
O instrumento natural seria a hidrelétrica flexível, usinas que despacham energia nos momentos em que a solar não gera. Mas esse mercado é incipiente no Brasil, com poucos agentes e alta fricção. Quem precisava zerar a posição não tinha onde fazê-lo.
É importante dizer: assumir esse risco foi uma escolha. Havia comercializadoras que optaram por não topar a modulação solar por reconhecerem essa ausência. As que toparam fizeram uma aposta sem saída quando precisou ser desfeita.
A solução está sendo construída. A Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) avança na regulamentação das baterias como instrumento de arbitragem de perfil. Até lá, esse risco permanece sem infraestrutura adequada de gestão.
Dois vetores, desenvolvendo-se em paralelo, sem que um soubesse do outro. Um mercado que secou. Um risco sem saída. Quando se combinaram, o resultado foi algo que o setor nunca havia visto.
O que os dois vetores têm em comum
Olhando os dois juntos, o que se vê não é um mercado que falhou. É um mercado apanhado por dois fenômenos inéditos: um risco conhecido que encontrou liquidez nunca tão restrita, e um risco novo para o qual a infraestrutura de cobertura ainda não foi construída.
Não é uma falha do mercado livre. Nem dos agentes afetados. Em um caso, faltou infraestrutura regulatória. No outro, sobrou assimetria regulatória.
E aqui está o problema com o diagnóstico de crise sistêmica: ele leva a respostas erradas. Restrições genéricas que penalizam quem operou com disciplina. Hesitação regulatória que adia as soluções necessárias.
Vale registrar: há comercializadoras que atravessaram os últimos cinco anos sem um único evento de crédito. Passaram pela escassez hídrica de 2021, pela volatilidade extrema de preços, pela abertura acelerada do mercado. Fizeram isso por escolha deliberada: não venderam o que não tinham comprado, não toparam exposições sem cobertura, construíram estruturas de capital e risco que suportaram os choques. Esse grupo existe, está capitalizado para crescer, e está sendo penalizado pelo mesmo crédito que deveria financiar sua expansão.
A agenda que importa agora
A demanda global por energia acelera. Inteligência artificial, data centers e reindustrialização apontam para um ciclo em que energia valerá cada vez mais. O mercado financeiro é parte essencial dessa equação: as comercializadoras saudáveis precisam de capital agora para crescer e atender a demanda que está chegando. Quando o crédito recua de forma indiscriminada, quem paga o preço não são as empresas que erraram. São as que acertaram.
Isso exige endereçar as lacunas reais: criar incentivos para que geradores mantenham presença no mercado bilateral, avançar no arcabouço regulatório para baterias e fortalecer os requisitos de garantia para posições descobertas.
Uma dessas distorções merece atenção especial: a regra que obriga todo agente a estar 100% contratado, sem que haja obrigação equivalente para o gerador de vender. Para entender o problema, imagine o seguinte cenário. O Estado te obriga a comprar de um único posto de combustível. Se você for a outro, leva multa. Você vai até o posto autorizado, mas o dono simplesmente decide não te vender nada.
O governo, para resolver o impasse, recolhe a gasolina, centraliza e vende para você. Você paga o preço. Dias depois, chega o boleto: uma multa por comprar fora do posto. E o pior: o valor do combustível que você pagou ao governo é repassado para aquele posto que te deu as costas. Você paga o produto, paga a punição, e o estabelecimento ganha sem mexer uma palha. No setor elétrico brasileiro, essa não é uma comparação. É o que acontece no Mercado Livre de Energia.
O Brasil está prestes a colocar quase 100 milhões de novos consumidores no mercado livre. Energia vale ouro. O crédito que deveria financiar esse momento está sendo fechado com base num diagnóstico errado. Quem paga o preço não são as empresas que erraram. São as que acertaram. Essa é a crise que ainda não foi noticiada.
* Gustavo Ayala é CEO do Grupo Bolt Energy, plataforma multivertical de energia com operação no mercado livre brasileiro
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