
Ler Resumo
Se alguém aí ainda acha que inteligência artificial provoca muito buzz e nem tanto impacto, hoje eu cheguei com dados que podem ajudar a mudar essa percepção. Para além de todo o hype, a IA já consome 28% do orçamento de investimento das grandes empresas brasileiras. Ou seja, quase um terço do dinheiro que essas companhias reservam para investir em novos projetos, ferramentas e melhorias internas já está indo para iniciativas ligadas à inteligência artificial, de tecnologia e marketing a atendimento, segurança e operações. E, veja bem: a expectativa é que até 2028 esse número chegue a 45%.
O dado aparece na pesquisa Impacto nos Negócios pela Adoção de IA no Brasil, conduzida pela IDC e comissionada pela Microsoft, com 73 C-levels de empresas com mais de mil funcionários. “O mercado brasileiro está evoluindo rapidamente da experimentação à implementação em escala”, afirma Eduardo Campos, vice-presidente da área de Soluções Tecnológicas da Microsoft Brasil.
Segundo Campos, seis a cada dez executivos (58%) já consideram a IA generativa e agentes como as tecnologias mais estratégicas para viabilizar prioridades dos negócios nos próximos dois anos. Isso explica por que motivo, em muitas organizações, houve uma mudança quando se trata do “dono da bola”. Segundo o estudo, a liderança dos processos migrou da TI para as áreas de negócio, com participação crescente dos próprios CEOs. Na divisão de responsabilidades, 18% dos entrevistados apontam esses líderes como principais responsáveis. O conselho executivo aparece com 21%, enquanto CIOs e CTOs somam 11%.
Iniciativas de IA melhoram indicadores de áreas variadas
O número mais duro para quem ainda vê a IA como experimento talvez seja este: 52% das empresas afirmam que não adotar inteligência artificial implica perda direta de competitividade.
Iniciativas de IA trouxeram ganho médio geral de 24,5%. Esse número consolida métricas que vale a pena destrinchar aqui: 28,2% em satisfação do cliente, 27,7% em eficiência de processos, 26,9% em redução de riscos e 25,2% em aceleração de lançamentos no mercado.
A pesquisa mostra que 45% das empresas já medem ganhos em eficiência, 49% veem ganhos em produtividade dos colaboradores e 41% percebem redução de custos. A próxima frente dessa expansão são os agentes de IA, que ao longo deste ano têm sido tão amplamente comentados na mídia tradicional e nas redes sociais. Segundo o levantamento, 56% das empresas já usam agentes em experimentação ou produção, principalmente em atendimento ao cliente, automação de marketing e cibersegurança. Até 2028, a adoção deve chegar a quase sete em cada dez organizações, ou 69%.
E onde é que entra tanto agente de IA? Entre os usos mais citados estão atendimento ao cliente, com 52%, marketing, com 51%, e segurança, com 45%. Para o público final, isso significa que a IA tende a aparecer menos como uma ferramenta isolada e mais como parte invisível de processos cotidianos.
Impacto da IA nos empregos é diferente do que muitos pensam
O senso comum diz que as IAs vão destruir os empregos, tomar o lugar de todo mundo, certo? É inegável que muitas ocupações serão extintas ou profundamente reformuladas, porém o que acontece hoje mostra um descompasso entre o mercado e os profissionais disponíveis.
Em muitas conversas que tenho com executivos, ouço relatos de vagas que demoram a ser preenchidas por falta de gente qualificada. A pesquisa traz um pouco disso: afirma que 30% dos executivos relatam escassez de talentos como uma das principais barreiras para adoção de IA. Também mostra que 43% veem dificuldade de contratação e retenção como consequência do atraso na adoção da tecnologia.
Para contornar esse gargalo, 86% das empresas estão investindo em capacitação para as áreas de TI e 71% para as áreas de negócio. Além disso, 60% das empresas criaram centros de excelência em IA, 63% criaram novas funções e 70% revisaram responsabilidades internas por causa da tecnologia. Como já comentei em outros textos aqui da coluna: a inserção de IA, quase sempre, vai demandar reformulação de processos, de equipes e cargos. Ela altera quem decide, quem executa, quem responde por resultados e quais habilidades passam a ser cobradas dentro das empresas. “Nesse contexto, ganha destaque a necessidade de integrar governança, segurança e ética em uma abordagem única de IA responsável, ao mesmo tempo em que a capacitação da força de trabalho se consolida como um fator decisivo para capturar valor”, afirma Luciano Ramos, Country Manager da IDC Brasil.
───────────────────────────────────────────────
Alvaro Leme é doutorando e mestre em Ciências da Comunicação pela ECA-USP, jornalista e criador do podcast educativo Aprenda em 5 Minutos