Ler Resumo

No norte da Ucrânia, depois de visitar uma série de parques e reservas ecológicas que servem de morada a animais silvestres como linces, raposas e alces, o aventureiro vai se surpreender ao alcançar o último bastião de natureza antes do Rio Dniepre: é nada mais nada menos que a Zona de Exclusão de Chernobyl. Em seu perímetro, a área isolada aloja as ruínas de uma civilização e um gigantesco sarcófago de concreto e metal, que tenta proteger o mundo da radiação liberada pelo reator que explodiu na famigerada usina nuclear soviética em abril de 1986. Ali, na chamada zona fantasma, entre construções e artefatos abandonados pelo homem, a vida reina e se prolifera. Pois a região, quem diria, se tornou um paraíso para diversas espécies animais que recolonizaram o local anos depois de uma das maiores catástrofes da história.

REFLORESCIMENTO - A vista da zona fantasma: abundância de verde e bichos
REFLORESCIMENTO - A vista da zona fantasma: abundância de verde e bichos (Kateryna Korepanova/.)

Esse oásis acaba de ser documentado em um grande estudo conduzido pela ecologista ucraniana Svitlana Kudrenko, pesquisadora da Universidade Albert Ludwigs, em Freiburg, na Alemanha. Sua equipe instalou armadilhas fotográficas em áreas de preservação na porção setentrional da Ucrânia para avaliar quanto a interferência humana tem afetado a ocupação desses espaços pelos animais. Após mais de 30 000 fotos — sendo 19 000 delas em Chernobyl —, os cientistas descobriram que a região da zona de exclusão passou a abrigar uma rica fauna de mamíferos. Veados, raposas, lobos, cavalos selvagens… Ao que tudo indica, a radioatividade não impõe uma barreira para os bichos se assentarem e viverem. O estudo inclusive demonstrou que a maior pujança zoológica nos arredores da antiga usina nuclear se deve justamente à inexistência de humanos e de suas atividades habituais, bem como à maior disponibilidade de alimentos. “Poder ver tantos animais ali foi emocionante”, disse Kudrenko a VEJA.

Mas como um local devastado como Chernobyl pode se tornar um paraíso natural? Para responder a essa questão cabe um retorno ao passado. Após a explosão do reator, a destruição em massa e os altos níveis de partículas radioativas atingiram brutalmente plantas, bichos e seres humanos que estavam próximos (ou nem tanto) da usina — alguns morreram na hora, outros pereceram meses ou anos depois. Mas, com o decorrer do tempo, os níveis de radiação diminuíram e o isolamento propiciou o avanço de mamíferos pelo pedaço. Foi assim que desde pequenas raposas até enormes alces passaram a dominar o território fantasma.

COLONIZAÇÃO - Veados em circulação: a ausência de humanos ajuda as espécies
COLONIZAÇÃO - Veados em circulação: a ausência de humanos ajuda as espécies (Kateryna Korepanova/.)
Continua após a publicidade

O fator humano, ou melhor, a falta de humanos, fez diferença. Em comparação com as outras áreas analisadas pela pesquisa, a Zona de Exclusão de Chernobyl, com cerca de 2 600 quilômetros quadrados na Ucrânia, foi o ambiente em que as câmeras mais captaram mamíferos em abundância. A fauna contempla, ainda, cervos, javalis, linces, ursos-pardos e os peculiares cavalos-de-przewalski — estes últimos vistos exclusivamente ali durante a coleta de dados.

Uma pergunta ecoa, contudo: estaria a nova prole de Chernobyl refém de mutações genéticas causadas pela radiação, alterações no DNA capazes de causar doenças e limitar seu tempo de vida? A resposta é complexa. Desde a tragédia, fauna e flora foram objeto de pesquisa. Cientistas relataram casos de árvores que cresciam de forma incomum, sapos que teriam mudado de cor e até fungos que se alimentavam de elementos radioativos. No entanto, a maior parte dos experimentos se deteve em animais pequenos, como roedores e anfíbios. “Estudos apropriados sobre os efeitos da radiação em grandes mamíferos requerem financiamento e logísticas mais amplos”, afirma Kudrenko.

Mapa da Ucrânia em amarelo, com a capital Kiev marcada por uma estrela e Chernobyl por um símbolo de radiação. Países vizinhos como Belarus, Polônia, Rússia, Moldávia e Romênia são cinzas. A Crimeia, no sul, tem listras amarelas e o Mar Negro é azul. Um globo terrestre no canto superior direito mostra a localização da Ucrânia em destaque vermelho. O título é

Continua após a publicidade

Apesar das dúvidas e dos medos que ainda pairam no ar, quatro décadas depois da explosão de Chernobyl, o fato, comprovado, é que o inferno se transformou em um oásis longe da interferência humana — ao menos para os animais que se aninham na zona de exclusão. “É um exemplo imenso de resiliência”, comenta a ecologista ucraniana. “Uma lição de que a natureza encontra caminhos mesmo nos terrenos mais difíceis e contaminados.” Lição que precisamos aprender e respeitar.

Publicado em VEJA de 5 de junho de 2026, edição nº 2998



Source link

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *