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O japonês Haruki Murakami, 77 anos, é o tipo de escritor que transforma a evasão em estilo. Foge das câmeras, evita eventos literários, prefere a companhia de gatos. Mesmo assim, vende dezenas de milhões de livros em cinquenta idiomas e encabeça, há anos, apostas para o Nobel de Literatura. Como disse em entrevista a The New Yorker, um “romancista cavalheiro” sequer deveria pensar no prêmio. A ironia é que todo mundo pensa por ele. Enquanto isso, Murakami corre maratonas, ouve jazz e escreve mais livros. Sorte a nossa. O novo romance, A Cidade e Suas Muralhas Incertas, chega às livrarias na terça-feira 9 e reúne os elementos principais do universo já conhecido do autor: além das várias referências musicais e a presença de gatos — personagens onipresentes em sua obra —, ele transmite nas páginas uma melancolia elegante que flutua entre o mundo real e a fantasia.

A história começa com um casal de adolescentes apaixonado que se separa de forma abrupta, sem despedida e sem explicação possível. A separação deixa marcas profundas no protagonista e narrador não nomeado, que carregará esse amor impossível por décadas, incapaz de formar outros vínculos significativos. A trama toca em temas como identidades que mudam ao longo de uma vida, desejos que não se completam e amores imaginários que habitam o limbo entre o que foi e o que poderia ter sido. É uma narrativa lenta e contemplativa, que recompensa quem tem paciência para lidar com ambiguidades e não se assusta quando unicórnios e fantasmas brotam nas páginas. A origem do texto está em uma novela de 1980, publicada numa revista literária japonesa e com a qual Murakami nunca ficou satisfeito. “Senti que essa obra continha algo vital para mim”, diz ele no posfácio, “mas, na época, infelizmente me faltava a habilidade para transmitir o que era esse algo”. Quarenta anos depois, ele voltou ao material, durante a pandemia de covid, e passou três anos reescrevendo-o, quase sem sair de casa — exatamente como o protagonista do livro, um “leitor de sonhos” numa biblioteca sem livros, dentro de uma cidade cercada por muralhas que mudam de lugar. Coincidência ou metáfora, fica a critério do leitor.

Nascido em 1949, em Quioto, e criticado pelos compatriotas por ser “ocidental demais”, o autor cresceu lendo Kafka, Dostoiévski e Fitzgerald, apaixonou-se pelo jazz aos 15 anos e chegou a gerenciar um bar do gênero em Tóquio, o Peter Cat, antes de se tornar escritor em tempo integral. A epifania veio durante um jogo de beisebol em 1978. Na arquibancada, sem nunca ter escrito uma linha, simplesmente soube que poderia escrever um romance. Saiu do estádio, foi a uma papelaria comprar material e começou. O resto é história. Ou melhor, é ficção. O sucesso chegou rápido. Com o autobiográfico Norwegian Wood (1987), virou fenômeno editorial no Japão, vendendo mais de 2 milhões de cópias. Avesso à atenção demasiada, não se deu bem com o status de celebridade, tanto que deixou o Japão e morou alguns anos nos Estados Unidos, no início da década de 1990. Logo, não haveria mais onde se esconder. O estrondoso sucesso da trilogia 1Q84, que vendeu mais de 10 milhões de cópias mundo afora, transformou-o num fenômeno literário global — seguido por adaptações de suas obras para o cinema: em 2018, Em Chamas saiu premiado de Cannes; em 2021, o belíssimo Drive My Car levou o Oscar de melhor filme internacional.

O universo Murakami funciona bem em imagens, graças a seus personagens enigmáticos, dotados de um carisma que força leitores e espectadores a querer saber mais sobre eles. Mais do que isso, sua prosa poética e reflexiva, envolvendo fantasia com toques de ficção científica, além de realidades paralelas, desafia aqueles que tentam categorizá-lo. Num momento significativo do novo romance, dois personagens conversam sobre Gabriel García Márquez. Um deles observa que, embora a crítica chame sua obra de realismo mágico, talvez, para o colombiano, aquilo fosse apenas realismo. A resposta do narrador é precisa: “Em outras palavras, o real e o irreal existiam um ao lado do outro e se equivaliam, e García Márquez só registrava isso de maneira honesta”. A frase resume a visão de Murakami, que não faz distinção de importância entre o real, o mágico e o imaginário. O autor vive em paz em seu universo particular — com ou sem um Nobel.
Publicado em VEJA de 5 de junho de 2026, edição nº 2998