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A mostra Vik Muniz — A Olho Nu foi vista por mais de 150 000 pessoas na passagem por Recife e Salvador. Agora, no CCBB do Rio de Janeiro, ela chega maior, com 220 obras. O que motivou essa reunião inédita do seu acervo? A última grande mostra que fiz no Brasil foi há mais de uma década, impulsionada pelo filme Lixo Extraordinário (2010). Quero mostrar o meu trabalho para pessoas que talvez não o tenham visto da primeira vez.
Busca alcançar um público mais jovem? Acho importante trazer o jovem para mais perto da arte. Me preocupo em criar vias de comunicação tanto com pessoas que entendem e estudam arte quanto com um público sem ligação com o assunto.
Lixo Extraordinário foi indicado ao Oscar de melhor documentário e virou material de apoio em escolas do país, mostrando o dia a dia de catadores de lixo no aterro do Jardim Gramacho, no Rio. O que mudou no seu trabalho após o filme? Muita coisa. Parei de jogar tudo fora e as ideias sobre reciclagem e transformação de materiais descartados virou parte essencial do que eu faço. Passei a olhar com mais atenção para o valor das coisas e das pessoas. Alguém que trabalha no lixo tem a capacidade não só de compreender a beleza, como também de participar de um processo artístico de forma criativa e relevante.
Como diminuir a distância entre a arte e o público em geral? É preciso entender que a arte não é um privilégio de poucos, é um direito de todos. Ela precisa estar ligada com o mundo real. Eu tenho, por exemplo, um projeto em Salvador chamado Lugar Comum, que é uma galeria dentro da feira de São Joaquim para quem circula por ali. A arte precisa ser cada vez mais democrática.
Um dos destaques da mostra é a série Museu de Cinzas, com imagens feitas das cinzas reais do incêndio do Museu Nacional, em 2018. Como foi esse processo? Fiquei arrasado quando tudo aconteceu. Me propus a ajudar na arrecadação de fundos e dei a ideia de fazer essas imagens com as cinzas. Abrimos uma exposição para vender algumas das obras e ajudar no processo de reconstrução, em parceria com a UFRJ e a PUC-Rio. A partir de segunda-feira, 8, vamos expor mais obras dessa série, inclusive a reconstrução do fóssil da Luzia (crânio mais antigo das Américas, de 13 000 anos) na Sala das Vigas do Museu Nacional, que é justamente onde o incêndio começou. É emocionante poder contar essa história e fechar esse ciclo.
Publicado em VEJA de 5 de junho de 2026, edição nº 2998