Mais de 30 pessoas foram vítimas de fraude e estelionato envolvendo concessionárias de carros de luxo em São Paulo, todas administradas por sócios comuns, que agem de forma semelhante. O golpe, que vem sendo praticado pelo menos desde 2024, consiste em adquirir o veículo de uma pessoa física ou jurídica e vendê-lo em seguida sem a formalização e pagamento da primeira transferência.
Os prejuízos individuais variam de R$ 90 mil a quase R$ 400 mil, conforme apurou a reportagem. Considerando todas as vítimas, o grupo criminoso teria faturado milhões de reais com o esquema.
A estrutura investigada envolve ao menos cinco concessionárias localizadas da zona norte à zona sul de São Paulo, além de uma em Guarulhos, na região metropolitana. São elas:
- Kaufen Car (Vila Guilherme, zona norte)
- Vitrine Car (Vila Macedo, Guarulhos)
- Platz Car (Vila Maria Baixa, zona norte)
- GT3 Motors (vizinha à Platz Car)
- Mônaco Cars (Brooklin, zona sul)
Uma sexta concessionária, chamada Boxhaus, também na zona sul paulistana, é alvo de suspeitas de irregularidades por ter sido aberta pelo suposto fundador do esquema fraudulento, conforme os investigados (veja mais abaixo) apontaram à Justiça.
Dentre todas as citadas, somente a Platz Car e a Boxhaus permanecem abertas. As demais foram fechadas ou dissolvidas no decorrer das investigações.
De acordo com a polícia, as concessionárias integram uma mesma estrutura, com gestão unificada e sócios em comuns. Além disso, havia também intercâmbio de funcionários e veículos entre os estabelecimentos, apontam para a existência de uma rede de estelionato e fraudes em massa.
Réus por estelionato
Três pessoas ligadas à Kaufen Car e Vitrine Car foram denunciadas pelo Ministério Público de São Paulo (MPSP) por estelionato e associação criminosa. Em fevereiro deste ano, o Tribunal de Justiça do Estado (TJSP) aceitou a denúncia, tornando Ricardo Jesus Campos, Luciana Araújo Dias e Márcio Joras dos Santos réus.
Enquanto Márcio seria o gestor e cabeça do esquema, Luciana e Ricardo atuariam como “testas de ferro”, assumindo o núcleo jurídico e operacional da estrutura criminosa.
“As condutas imputadas aos denunciados evidenciam gravidade concreta acentuada, com pluralidade de vítimas, habitualidade delitiva, atuação estruturada, associação criminosa e expressivo prejuízo econômico que atinge a casa de milhões de reais, sem qualquer reparação ou iniciativa de fazê-lo”, destacou a 1ª Promotoria de Justiça Criminal da capital na denúncia oferecida em janeiro.
Um quarto investigado, também réu na Justiça, é Flávio Luís Ilhanes, investigado em um processo independente. Em maio, o TJSP aceitou contra ele a denúncia por estelionato, entendendo que o homem usou um documento de identidade falso para celebrar um contrato e induzir terceiros a erro.
Alvo de outras investigações por condutas similares, a promotoria entendeu que Ilhanes tem “atuação dolosa, reiterada e profissional voltada à captação fraudulenta de bens e valores em benefício próprio”.
Segundo um grupo de 25 vítimas da Mônaco Cars que denunciou o esquema à reportagem, há outros envolvidos no esquema que ainda não foram formalmente acusados pelo MPSP. As vítimas citam vendedores que seriam integrantes conscientes da estrutura criminosa, além de familiares dos investigados que atuariam como laranjas.
O Metrópoles apurou, ainda, que os investigados acumulam ações no TJSP, na esfera cível e criminal, associadas ao esquema. Diversas vítimas acionaram a Justiça com notícia-crime, pedido de indenização por danos morais e materiais ou de concessão de liminar para transferência de veículo, entre outros.
Abordagem de vítimas em plataformas digitais
O esquema consistia no aliciamento de vítimas por meio de conhecidas plataformas digitais de compra e revenda de veículos. Segundo a investigação, uma equipe de “captação”, principalmente vinculada à Kaufen ou à Mônaco Cars, abordava vendedores a partir de anúncios feitos nesses sites. As abordagens eram feitas dentro da própria plataforma ou do WhatsApp.
Os suspeitos propunham ao proprietário que deixasse o veículo na loja para venda consignada, justificando que assim o negócio seria fechado mais facilmente. Para convencer o cliente, o captador frequentemente dizia que a concessionária já tinha um comprador em potencial, interessado naquele modelo específico, acelerando a negociação.
Com o carro na loja, o grupo criminoso exigia que o proprietário retirasse o anúncio dos sites. A concessionária, então, criava um novo anúncio sob o nome da loja, e muitas vezes cobrava taxas da própria vítima para realizar essa nova publicação e elaborar laudos cautelares do veículo.
Para dar a imagem de legalidade, as concessionárias possuíam showrooms físicos e alimentavam perfis nas principais redes sociais com publicações dos veículos. Com esses atributos, os proprietários confiavam que estavam vendendo seus veículos a uma empresa legítima, mas nunca receberam pela venda.
As vítimas só percebem as fraudes quando recebem notificações de multas e infrações de trânsito, ou então contato do novo comprador solicitando a documentação de transferência do veículo. Em alguns casos, ao se deparar com as lojas vazias e lacradas, após mandados de busca e apreensão cumpridos pela Justiça, os proprietários originais concluem que caíram em um esquema de estelionato.
O que dizem os investigados
O Metrópoles não localizou a defesa de Márcio, Luciana ou Ricardo. A reportagem tentou contato com a defesa de Flávio Ilhanes, mas não houve sucesso. O espaço segue aberto.
Nos autos, os réus se defendem das acusações alegando perda do controle dos negócios e problemas financeiros e desconhecimento do gerenciamento das concessionárias.
Antes de abandonar o processo, a defesa de Márcio argumentou que o conflito com as vítimas deveria ser resolvido na esfera cível. Para o advogado, as queixas criminais por apropriação indébita e estelionato seriam “equivocadas”, já que existiam contratos de consignação assinados.







