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Quando menino, eu vivia no interior de São Paulo, em Marília. Na época era uma cidade bem menor do que hoje. Ainda assim, eu havia nascido em outra menor: Bernardino de Campos. A velha Bernardino, fundada por imigrantes espanhóis, à beira da estrada de ferro. Lamento, pois lá não me resta nenhum parente com quem tenha mantido contato. Em Marília, a mesma coisa: tenho somente dois amigos de quando eu era menino, Antonio Carlos e Moacir. Hoje são dois senhores com os quais gostaria de manter uma amizade próxima, mas a passagem dos anos nos afastou — e também minha absoluta incapacidade de me tornar um bom motorista, o que dificulta trajetos mais longos.

Desde jovenzinho, eu queria viver em São Paulo. Não errei. Somente em uma cidade grande encontraria espaço para me tornar escritor, trabalhando na grande mídia. Mas aos aventureiros é preciso avisar: viver em São Paulo demanda coragem.

De manhã, o despertador toca, mas o trânsito já está acordado há horas. Levanto, abro a cortina e o que vejo? Prédios iguais aos meus. Como se alguém tivesse apertado o botão “copiar e colar”. O café esfria enquanto tomo a difícil decisão de começar o dia: metrô cheio ou aplicativo caro? Chamo o elevador. Ninguém se olha, embora eu more no prédio há anos. Também fixo meus olhos à frente. Vizinho é coisa de interior.

“São Paulo cansa, irrita, aperta, mas também seduz. Fugir daqui dá mais trabalho do que ficar”

Vou de metrô, não dá pra pegar aplicativo todo dia. O metrô chega cheio e ninguém desce. Mas uma multidão dá braçadas para entrar e deixo-me levar pela correnteza até a porta de entrada do vagão. Então, mergulho corajosamente, enquanto uma multidão tenta sair por ela e os que estão lá dentro não se movem para me deixar entrar. Vou me atrasar, claro. A cidade engole o tempo como um aspirador de pó. Se marco um encontro, sei que o horário é apenas uma indicação. Uma hora? Já nem se considera atraso.

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Pior ainda se chove. É dramático, com direito a cataratas descendo pelas alamedas. O guarda-chuva quebra, o sapato encharca, espirro e a dignidade vai junto. Mas ninguém para. As pessoas se aglomeram nas esquinas esperando o farol abrir. Os carros buzinam e eu sempre me pergunto: quem acha que adianta alguma coisa?

À noite, a cidade se ilumina, como se pedisse desculpas pelo caos que protagonizou durante o dia. Vou a um bar, confraternizo com amigos e quase tenho um ataque cardíaco diante da conta exorbitante. Finalmente, quando me deito, tenho a sensação de ter vencido uma maratona invisível — vitorioso por ter resgatado, no almoço, a última almôndega no restaurante por quilo.

Penso em voltar para o interior. Para Bernardino de Campos, onde ainda se pode fazer tudo a pé — inclusive ir à padaria devorar o pudim da minha infância. Prometo a mim mesmo que vou, sim, embora da cidade, para uma bem pequena, porque as outras capitais, seja Fortaleza ou Porto Alegre, são grandes demais também. Faço planos. Mas não consigo me imaginar plantando milho ou ordenhando vacas no interior. São Paulo cansa, irrita, aperta, mas também seduz. Pior que já sei. Fugir daqui dá mais trabalho do que ficar.

Publicado em VEJA de 1º de maio de 2026, edição nº 2993



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