
O primeiro grande sonho de Flávio Carneiro ficou pelo caminho por causa de 0,25 grau de miopia. A frustração, que na adolescência pareceu definitiva, acabaria se tornando o ponto de partida de uma carreira global. Nascido em Poços de Caldas, cidade turística de Minas Gerais, em 1968, ele viveu ali até os 16 anos. Saiu jovem e nunca mais voltou a residir na cidade, embora ainda carregue o desejo de retornar um dia. É lá que estão suas raízes, boa parte da família e as primeiras referências que ajudaram a moldar sua personalidade.
A história dos pais também ajuda a explicar essa formação. O pai, Roberto, nascido em Caconde, no interior de São Paulo, foi engraxate, barbeiro e, mais tarde, comerciante. A mãe, Evani, é de São Sebastião da Grama, outra cidade paulista. Os dois se conheceram em Poços de Caldas e construíram ali a vida familiar. Quando Flavio tinha 12 anos, acompanhava e ajudava os pais na loja de souvenirs da família, que vendia de tudo um pouco: lembranças da região, vinhos, queijos, salgadinhos, café, refrigerantes, cachaças, sabonetes e máquinas fotográficas.
A rotina da família era intensa. O expediente começava às 7h e muitas vezes avançava até as 21h. Na alta temporada, podia chegar às 23h. Na época, Flavio nem sempre compreendia o peso daquele esforço e se incomodava por passar parte dos fins de semana e das férias escolares na loja. Com o tempo, passou a enxergar aquele período de outra forma. Foi ali que aprendeu que sonho exige trabalho, presença e disposição para fazer o que precisa ser feito. O pai dizia que o apoiaria no que fosse possível, mas que o caminho teria de ser construído por ele.
Tudo começou com um sonho
Entre os 10 e 11 anos, Fláviovio começou a alimentar o sonho de ser piloto de avião. Um de seus tios, João Carlos, estava tirando o brevê de aviação comercial e tinha vários aviões de montar da Revell, marca conhecida pelos modelos plásticos em miniatura. Na convivência com ele, Flávio passou a imaginar que seu destino profissional já estava traçado: seria piloto.
Entrar na Escola Preparatória de Cadetes do Ar (Epcar), em Barbacena, Minas Gerais, parecia o caminho mais possível. A ideia era seguir depois para a Academia da Força Aérea (AFA), em Pirassununga, São Paulo.
No início, estudou por conta própria. Quando prestou o concurso para a Epcar pela primeira vez, em 1982, percebeu que o desafio era maior do que imaginava. Havia candidatos de todo o Brasil, reunidos em ginásios lotados, fazendo provas simultaneamente em diversas cidades. O resultado ficou abaixo do esperado. Voltou frustrado, mas com a convicção de que precisaria se preparar melhor.
Passou mais um ano estudando enquanto cursava o segundo grau em Poços de Caldas, aos 14 anos. Teve, inclusive, aulas particulares de matemática, um investimento feito pelo pai. Na segunda tentativa, foi aprovado na parte teórica da Epcar e seguiu para as etapas seguintes.
Vieram então os exames médicos, realizados em São Paulo. A próxima fase seria o exame psicotécnico, na AFA. No momento do resultado, seu nome não foi chamado. Flávio estava entre os não aprovados. Depois, descobriria o motivo: tinha, à época, 0,25 grau de miopia. A notícia teve peso. Foi uma das primeiras grandes frustrações de sua vida.
Redefinir o caminho também faz parte da jornada
Depois da decepção, Flávio precisou redirecionar o sonho. Descobriu a possibilidade de estudar Engenharia Aeronáutica no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), em São José dos Campos. Ao mesmo tempo, percebeu que o exame de admissão seria ainda mais difícil que o da Epcar.
Essa foi a motivação para se mudar para o Rio de Janeiro, em 1985, e morar com a tia Maria Helena. Encarou o desafio e cursou o terceiro ano do então colegial conciliando escola e cursinho preparatório. A rotina era intensa: estudava das 8h às 22h, de segunda a sábado, e fazia provas todos os domingos, em um ambiente extremamente competitivo.
Prestou diversos vestibulares e foi aprovado em várias instituições, menos no ITA. Já estava preparado mentalmente para dedicar mais um ano aos estudos quando a mãe recebeu uma ligação informando que ele havia sido aprovado na segunda chamada.
A adaptação foi dura. De 1986 a 1990, viveu na base aérea durante a graduação. Morar nesse ambiente, com aulas integrais e alta pressão por desempenho, exigiu disciplina e resiliência. Flávio conseguiu se formar sem reprovações e sem nunca precisar fazer segunda época. Foi ali que aprendeu a lidar com pressão e a construir boas alianças, fundamentais para o trabalho em equipe.
Nos dois primeiros anos da graduação do ITA, todos os estudantes eram militares. A partir do terceiro ano, era possível optar por manter ou não esse vínculo. Flávio percebeu que, além de não querer mais ser engenheiro aeronáutico, também não desejava seguir a carreira militar. Decidiu migrar para Engenharia Mecânica Aeronáutica, pela versatilidade da formação.
Durante a graduação, fez estágios na Embraer, uma das maiores fabricantes de aeronaves do mundo, e na Rhodia, empresa tradicional do setor químico. Também deu aulas particulares e participou de projetos de iniciação científica para complementar a renda. Ao final, optou por aceitar uma proposta de trainee na Rhodia.
Na Rhodia, passou pelas áreas de métodos, projetos, manutenção, engenharia, utilidades e processos. Circulou bastante, e toda a formação em engenharia se mostrou valiosa.
A estratégia começou a ganhar espaço
Com o passar do tempo, Flávio descobriu um lado mais voltado à estratégia e às relações. Ao perceber esse interesse crescente, buscou uma pós-graduação em Administração de Empresas pela Fundação Getulio Vargas (FGV), que cursou de 1993 a 1995. Não conseguiu bolsa de estudos, mas teve apoio da Rhodia para viabilizar a logística. Saía de São José dos Campos para São Paulo três vezes por semana depois do trabalho.
Ao concluir essa etapa, ficou convicto de que precisava migrar para o setor comercial. Naquele momento, porém, essa mudança não era possível dentro da companhia. Foi então que identificou uma especialização em marketing na Universidade da Califórnia em Berkeley, nos Estados Unidos. Conversou com seus gestores e construiu um acordo que permitiria custear parte das despesas.
Foi nesse período que recebeu o contato de um recrutador executivo ligado à Van Leer Industrial Packaging, empresa holandesa do setor de embalagens industriais. Entrou no processo seletivo sem grandes expectativas, inicialmente para áreas industriais. Quando já se preparava para seguir com os estudos, surgiu uma oportunidade na área de marketing da companhia.
Depois de conversar com a família, optou por permanecer no Brasil, especialmente pelas possibilidades de desenvolvimento internacional que faziam parte do escopo do trabalho. Foi nesse momento que se mudou para São Paulo.
Crescimento também exige decisões difíceis
A trajetória iniciada na Van Leer ganharia novo contexto pouco tempo depois. Em 2001, a divisão de embalagens industriais da companhia foi adquirida pela Greif, empresa americana do setor de embalagens industriais. A operação ampliou a presença global da Greif e integrou unidades da Van Leer em diferentes países.
Em 2003, já dentro da estrutura da Greif, Flávio participou de um processo de transformação conduzido pela McKinsey, consultoria global especializada em estratégia e gestão. A experiência incluiu um treinamento prático na Europa e, depois, a implementação de conceitos de excelência comercial em diversos países da América Latina.
Em meados de 2008, recebeu o convite para liderar uma operação no México. Era um dos maiores desafios de sua carreira: recuperar uma unidade de negócio com três unidades industriais que operava no prejuízo. Foi necessário tomar decisões difíceis, incluindo reestruturações e o fechamento de uma das fábricas.
A reversão dos resultados veio de um conjunto de movimentos. O volume que antes era dividido entre duas fábricas passou a ser produzido na unidade mais eficiente, o que trouxe ganho de escala. A operação também melhorou a performance industrial, reduziu custo de conversão, avançou em excelência comercial, ajustou serviços de qualidade, entrega e atendimento, gerenciou melhor as margens dos produtos e desenvolveu novos fornecedores. Nada disso teria funcionado sem o engajamento do time em torno de um propósito comum.
No final de 2010, veio o convite para assumir a vice-presidência da América Latina em uma nova divisão da empresa. Flávio entendeu que era uma oportunidade única e retornou ao Brasil em 2011. Já em 2018, recebeu o convite para ser gerente geral da Trivium Packaging no Brasil, multinacional especializada em embalagens metálicas. A missão era liderar o plano de expansão da companhia no país. À frente da operação, montou um time sólido e conduziu um ciclo de crescimento consistente, marcado por alto engajamento, lealdade de clientes e forte desempenho operacional.
Em 2022, surgiu um novo desafio: liderar a unidade de embalagens de aerossóis e bebidas na Europa. A mudança aconteceu efetivamente em 2023. Flávio se mudou com a família para Valência, na Espanha, onde hoje é responsável por um negócio com unidades produtivas em cinco países.
Mesmo com os desafios corporativos, também encontrou tempo para empreender. A Smart Market Conveniência foi criada no final da década de 1990 com a aspiração de se tornar uma franquia, mas a primeira e única loja acabou fechando após cinco anos. Já o Minas Garden Hotel, em parceria com o irmão, André Roberto, seguiu outro caminho.
O hotel começou a operar com 24 apartamentos no início dos anos 2000. Com o passar do tempo, foi ampliado para 40 apartamentos e, mais recentemente, chegou a 80. Os 40 quartos antigos passaram por reforma. A operação também foi reposicionada com foco na experiência dos hóspedes, levando a Poços de Caldas o conceito de excellence for less. Na prática, tornou-se uma espécie de resort no centro da cidade.
Para cada desafio, um estilo de liderança
Flávio acredita que a liderança é, essencialmente, situacional. Cada contexto exige uma abordagem específica. Para que um líder seja eficaz, é fundamental adaptar-se e manter versatilidade.
Sua visão de gestão combina referências da liderança autêntica, defendida por Bill George, e da liderança servidora, popularizada por James Hunter em O Monge e o Executivo. Ele afirma não ser um líder autoritário, embora reconheça que, em determinados momentos, decisões firmes sejam necessárias.
Valoriza o diálogo, o respeito às diferentes perspectivas e o conflito construtivo. Prefere ouvir antes de falar, processar as ideias e, então, decidir. Dá autonomia às pessoas, mas com acompanhamento próximo e feedback constante. Quando necessário, é direto, sempre com respeito e empatia.
Também acredita em liderar pelo exemplo. Quando era gerente geral da Trivium Packaging no Brasil, morava em São Paulo e, na maioria dos dias, ia e voltava até a fábrica localizada em Itupeva, a cerca de 70 quilômetros de distância. Mesmo com o deslocamento, fazia questão de chegar cedo, circular pela operação e conversar com as equipes diariamente.
Cargos são apenas nomenclaturas
Com a evolução da carreira, Flávio entendeu que algumas convicções precisam ser revistas. O crescimento exige escolhas e, muitas vezes, renúncias.
Apesar das responsabilidades, não encara a rotina apenas como algo estressante. Tem longas jornadas de trabalho, muitas vezes também nos fins de semana, mas considera essencial encontrar momentos para refletir, planejar e cuidar da saúde física e mental.
Cargos são importantes para organizar responsabilidades, mas continuam sendo títulos. O verdadeiro valor está no aprendizado acumulado ao longo da jornada, na qualidade das relações construídas e na forma como cada desafio é atravessado.
O sucesso como consequência
Hoje, Flávio vê o verdadeiro sucesso diretamente ligado ao propósito. Segundo ele, é fundamental saber para onde se quer ir, ainda que o caminho mude ao longo do tempo.
Seus sonhos evoluíram. Já quis ser piloto, depois engenheiro, depois líder global. Cada fase trouxe aprendizados importantes. O que mudou foi a forma de enxergar a chegada. O topo, sozinho, diz pouco. O mais importante é quem você se torna durante a caminhada.
Para Flávio, sucesso é continuar evoluindo, mantendo valores e sendo reconhecido como alguém confiável e íntegro.
A quem está no início da carreira, o conselho é claro: ter propósito, foco, disciplina e paixão. Mesmo diante de falhas, a persistência será determinante para chegar onde se deseja.
Também é importante estar aberto a transformar os próprios sonhos. Muitas vezes, o caminho muda. E, quando muda, também transforma quem caminha.