A empresa canadense Future Fertility desenvolveu plataforma baseada em inteligência artificial que analisa imagens de óvulos para identificar o potencial reprodutivo de cada um deles. Os resultados indicam as chances de sucesso de uma gestação, auxiliando na orientação sobre que métodos podem ser adotados em busca da maternidade.
A partir das coletas usuais de laboratório, são tiradas fotografias de alta resolução, processadas por algoritmos treinados com larga base de dados para identificar os padrões associados às características de cada óvulo.
A ferramenta emite dois relatórios principais, cada um voltado para diferentes objetivos. O primeiro analisa óvulos que serão congelados, indicando seu potencial de fertilização.
Em vez de informar apenas a quantidade na amostra, a análise também permite interpretar a qualidade do grupo específico que foi armazenado. Essas informações permitem uma tomada de decisão sobre a necessidade ou não de novos ciclos de coleta.
O segundo se aplica a ciclos de FIV (fertilização in vitro) e foca no desempenho dos óvulos durante o tratamento. A análise atribui a cada óvulo uma probabilidade de desenvolvimento para um embrião viável e, assim, permite que médicos e pacientes adotem estratégias para o sucesso do procedimento.
Para Paula Marin, ginecologista especialista em Reprodução Humana do Hospital Sírio-Libanês, as novas tecnologias como a IA podem transformar a reprodução assistida e auxiliar no oferecimento de ferramentas em praticamente todas as etapas do tratamento.
“Hoje, já observamos aplicações da IA em diversas etapas da jornada do paciente”, explica. “Na estimulação ovariana, algoritmos podem auxiliar na previsão da resposta aos medicamentos, ajudando a individualizar protocolos e doses”.
A tecnologia está integrada a tratamentos comuns ligados à fertilização, acrescentando informações mais precisas que auxiliam profissionais da saúde e mulheres a decidir sobre próximos passos.
No mercado da fertilização, também há ferramentas voltadas para a seleção espermática e identificação dos espermatozoides com melhores características para utilização na fertilização, além de modelos preventivos, que buscam estimar taxas de fertilização, implantação, abortamento e nascimento, fornecendo informações adicionais para o aconselhamento dos pacientes e para a tomada de decisões clínicas.
No entanto, Marin defende que é preciso cautela e critério científico para ao uso dessas novas tecnologias: “É importante separar potencial de evidência. Muitas tecnologias estão sendo desenvolvidas e algumas já são comercializadas, porém ainda estamos construindo o corpo de evidências necessário para entender claramente quais delas realmente melhoram os desfechos clínicos, especialmente as taxas de nascimento de bebês saudáveis”, defende a médica.
Ela também alerta para a necessidade de deixar claro como funcionam as ferramentas na troca entre médicos e pacientes. Algumas delas são apresentadas como capazes de prever resultados com maior precisão, mas não se deve abandonar a literatura científica.
“É essencial lembrar que a tecnologia não substitui o raciocínio clínico. A melhor decisão continua sendo aquela que integra dados tecnológicos, conhecimento científico, experiência profissional e os objetivos individuais de cada paciente”, completa.