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Uma série de incidentes racistas envolvendo argentinos abalou o Brasil neste ano. No último domingo 24, Eduardo Ignacio, de 63 anos, foi preso em flagrante por fazer fotos e vídeos de uma criança dentro de um trem em Minas Gerais, encaminhando-as para um contato no celular com as mensagens: “Ele é negro, mas muito bonitinho. Eu poderia levá-lo como escravo. Estou pensando em pegar um escravo, tem muitos por aqui.”
Em abril, José Luis Haile, de 67 anos, foi detido por acusação de injúria racial contra um entregador de comida em um supermercado no Rio de Janeiro, e aguarda julgamento. Pouco antes, em janeiro, Agostina Páez, de 29 anos, foi presa em Ipanema após ser filmada imitando um macaco para um garçom, passando dois meses e meio sob custódia policial, embora tenha sido libertada posteriormente (ela alegou nas redes sociais que sofreu “perseguição” – uma narrativa repetida por parte da mídia argentina).
Nesta quinta-feira, 28, o jornal britânico The Guardian escreveu que os casos expõem a autoimagem “europeia” da Argentina, agora sob escrutínio renovado. Em entrevista à publicação, o cientista político e ativista afro-argentino Federico Pita afirmou que nenhum dos casos recentes foi uma surpresa, dada a longa história de racismo no país.
“O racismo está inscrito no próprio projeto da nação argentina. A Argentina é constitucionalmente um país supremacista”, disse ele, citando o artigo 25º da Constituição, que afirma: “O governo federal deve promover a imigração europeia”.
Apagamento de minorias
Segundo Pita, a Argentina continua a se enxergar como um país “europeu”, enquanto nega a existência de afro-argentinos e povos indígenas que, segundo o censo de 2022, representam cerca de 1% e 3% da população, respectivamente, embora ativistas e pesquisadores argumentem que os dados são subestimados subestimados porque muitos têm medo ou preconceito de se identificar como tal.
“Um descendente aimará (povo indígena andino) nascido no norte da Argentina é tratado como boliviano, um mapuche nascido na Patagônia argentina é tratado como chileno; e um negro de Buenos Aires é tratado como uruguaio ou brasileiro, porque a única coisa considerada verdadeiramente argentina é a brancura”, argumentou Pita.
Em março, a Argentina foi o único país latino-americano a votar contra uma resolução das Nações Unidas que declarava o tráfico de africanos escravizados o “crime mais grave contra a humanidade”. Além dela, só Estados Unidos e Israel se opuseram à medida.
O Guardian lembrou que casos de racismo de argentinos contra brasileiros não são novidade. Em 1920, jogadores da seleção brasileira de futebol se recusaram a jogar um amistoso após serem retratados como “macacos” em um jornal da Argentina. Até hoje, torcedores imitando macacos são flagrados em praticamente todas as partidas envolvendo clubes dos dois países e, embora não haja evidências de incidentes racistas estejam se tornando mais comuns, as redes sociais ajudaram a colocá-los em evidência.