No Brasil, há exemplos de fatos e escândalos que mudaram o rumo das eleições presidenciais, seja uma facada, uma queda de avião, uma fake news, um atentado ou uma operação policial. Neste ano, o maior abalo eleitoral, a cinco meses do pleito, surgiu com a revelação das relações suspeitas do pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) com o banqueiro preso Daniel Vorcaro, do extinto Banco Master.

O impacto dos fatores explosivos depende da circunstância, do momento político, do humor do eleitor, especialmente entre os eleitores indecisos ou mais moderados, como aponta a diretora do Ipsos-Ipec, Márcia Cavallari. Entre os convictos, o estrago é quase nulo.

“Os escândalos contribuem para corroer ainda mais a confiança e a credibilidade no sistema político como um todo. Eles podem impactar significativamente a percepção e o comportamento eleitoral, mas raramente mudam a intenção de voto do eleitor ideologicamente convicto e polarizado”, afirma a pesquisadora.

Como ainda há muita água para rolar até outubro, o jogo não foi zerado sob a luz do caso de Flávio com Vorcaro. O cientista político e sociólogo Antônio Lavareda acredita em cenas dos próximos capítulos.

“As revelações continuam e nós vamos ver outros personagens [envolvidos]. Mas esse caso atinge um flanco importante que é o da moralidade, extremamente significativo para candidatos com um eleitorado predominantemente à direita do espectro político ideológico”, diz Lavareda.

Caso histórico, em abril de 2002, a então pré-candidata Roseana Sarney foi abatida em pleno voo presidencial. Uma operação da Polícia Federal encontrou mais de R$ 1 milhão em espécie na sede da empresa Lunus Participações, onde o marido dela, Jorge Murad, era sócio (leia mais abaixo).

“O caso da Roseana, que ocorreu na pré-campanha ou no início dela, é como o caso de Flávio. Ele não muda o voto no dia da eleição por impulso, mas pode destruir a viabilidade política do candidato antes mesmo da largada”, afirma Cavallari.

Quando o abalo ocorre perto de uma eleição, há potencial de alterar a vontade do eleitor, como aconteceu após a facada contra o ex-presidente Jair Bolsonaro em 2018; a aparição de uma ex-companheira de Lula na propaganda eleitoral do adversário Fernando Collor, em 1989.

Já o atentado a Rua Tonelero, em 5 agosto de 1954, instaurou uma crise política que culminou, menos de um mês depois, no suicídio do ex-presidente Getúlio Vargas.

“No caso de atentados, o que muda o rumo das eleições é um apelo mais emocional para os eleitores”, destaca Lavareda. “Isso permite que se tenha uma construção até de uma narrativa que possa mobilizar eleitores”.

As eleições deste ano estão marcadas para o dia 4 de outubro, primeiro domingo do mês. O segundo turno, se houver, em 25 de outubro. Antes disso, os partidos devem realizar as convenções partidárias para a definição dos candidatos, entre julho e agosto deste ano.

Relembre os casos

Banco Master (2026)

Áudios vazados mostraram que Flávio Bolsonaro pediu dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro, investigado pelas fraudes do Banco Master, para financiar o filme Dark Horse, que conta a vida do pai dele, o ex-presidente Jair Bolsonaro.

Além disso, o pré-candidato do PL visitou o banqueiro após a primeira prisão dele no fim de 2025 e na véspera de ser anunciado como o nome na disputa pelo Palácio do Planalto. O caso trouxe um impacto para a campanha de Flávio, que caiu em pesquisas eleitorais após a revelação.

Facada em Jair Bolsonaro (2018)

Durante a campanha eleitoral, o ex-presidente Jair Bolsonaro foi esfaqueado durante uma agenda em Juiz de Fora (MG), no dia 6 de setembro. O caso ampliou sobremaneira a exposição do então candidato nos meios de comunicação. Bolsonaro já liderava as pesquisas antes do atentado, mas o fato produziu impacto em sua rejeição a partir da comoção de parte do eleitorado. Ele foi eleito presidente no segundo turno com 55,1% dos votos válidos.

Eduardo Campos (2014)

Em agosto de 2014, o então presidenciável Eduardo Campos (PSB) morreu numa queda de avião em Santos (SP). A morte do ex-governador de Pernambuco alterou o cenário da disputa presidencial daquele ano. Na época, o candidato aparecia em terceiro lugar nas pesquisas. Foi, então, substituído por Marina Silva. A reta final da eleição foi disputada entre Dilma Rousseff e Aécio Neves. A petista venceu a disputa pelo Planalto e garantiu a reeleição.

Operação Lunus (2002)

Durante a pré-campanha nas eleições, em abril, a Polícia Federal deflagrou a Operação Lunus, que encontrou mais de R$ 1 milhão em dinheiro na sede da empresa Lunus Participações, da qual Jorge Murad, marido da então governadora do Maranhão e pré-candidata à Presidência Roseana Sarney, era sócio. A PF investigava empresas acusadas de utilizar irregularmente recursos da extinta Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (Sudam).

Roseana acusou a polícia de agir com viés político, com o objetivo de inviabilizar a candidatura dela em favor da candidatura do senador José Serra (PSDB-SP), que era do mesmo partido do então presidente Fernando Henrique Cardoso.

Caso Miriam Cordeiro (1989)

Esse caso é marcante porque a eleição de 1989 foi a primeira eleição direta, depois do período da ditadura, para o cargo de presidente da República. Na última semana do segundo turno das eleições, uma ex-companheira de Lula, Miriam Cordeiro, apareceu durante a propaganda eleitoral de Fernando Collor. Nela, Miriam dava um depoimento bombástico, afirmando ter sido traída pelo petista e que não podia apoiar um homem que teria oferecido dinheiro para ela abortar a filha do casal, Luriam. Miriam também acusou Lula de ser racista.

O petista chegou a gravar um programa eleitoral com a filha durante o último programa eleitoral da campanha, mas não conseguiu reverter o resultado e perdeu a eleição. Collor foi eleito com 53% dos votos válidos.

Atentado da Rua Tonelero (1954)

Em 5 agosto de 1954, houve o atentado contra o jornalista e político Carlos Lacerda, no Rio de Janeiro, principal opositor do então presidente Getúlio Vargas naquele pleito, em outubro. O ataque matou o major Rubens Vaz e gerou uma crise após uma ligação entre os integrantes da guarda pessoal de Vargas e o atentado ter sido descoberto. O caso culminou no suicídio de Vargas em 24 de agosto do mesmo ano.



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