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A polícia de Paris investiga mais de 100 denúncias de maus-tratos, violência física e estupro cometidos por monitores contra crianças de até três anos nas escolas primárias da capital da França, em um escândalo que abala o sistema educacional do país. De acordo com informações divulgadas pela imprensa local nesta segunda-feira, 25, inquéritos estão sendo conduzidos pelas autoridades em 85 pré-escolas, 20 escolas primárias e 10 creches.
“É um escândalo gigante”, definiu o advogado Florian Lastelle, representante de três famílias parisienses que registraram denúncias sobre o possível abuso de seus filhos. “O sistema escolar público é um motivo de orgulho neste país, mas infelizmente não é possível dizer que hoje, na França, o serviço público garante a segurança das crianças”, completou.
As famílias afirmam que as crianças têm sido agredidas física e psicologicamente pelos monitores, sendo submetidas a longos períodos de privação alimentar, forçadas a comer até vomitarem e até mesmo sendo vítimas de violência sexual. Para os pais, o cenário é resultado de falhas no processo de recrutamento e na verificação de tais funcionários, permitindo que os abusos se perpetuassem e as acusações fossem ignoradas por anos.
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Responsáveis por acompanhar as crianças durante os intervalos das aulas e atividades extracurriculares, os monitores escolares são adultos que passam uma grande quantidade de tempo junto aos alunos. Embora a posição lide com um público delicado, eles não são empregados diretamente pelas escolas ou pelo Ministério da Educação. Ao invés disso, são recrutados pela prefeitura, muitas vezes sem treinamento e de forma casual, com remuneração fixada por hora.
A educação infantil na França é obrigatória a partir dos 3 anos de idade, e monitores são uma presença diária constante em suas vidas até os 11 anos. Em uma das denúncias apresentadas à polícia local, uma menina de 3 anos teria sido estuprada por um monitor em uma escola no oeste de Paris. Após uma sequência de outras reclamações por postura violenta, o funcionário acabou sendo transferido para outra instituição, onde teria cometido violência sexual contra um menino, também de 3 anos.
“Certa vez, esse garoto ficou tão angustiado em frente ao portão da escola, recusando-se a entrar, que entrou em uma espécie de transe. O diretor teve que sair para forçar a criança a entrar na escola e, na época, nem ele e nem a mãe do jovem sabiam o que havia acontecido”, disse o advogado Louis Cailliez, representante da família. “É uma tortura diária para os pais, que querem que a investigação avance para estabelecer a dimensão dos crimes”, finalizou Cailliez.
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O coletivo SOS Périscolaire, formado por pais revoltados pelos episódios de abuso, tem coletado testemunhos e feito campanha para viabilizar mudanças no sistema educacional, como receber uma lista de nomes e fotografias de monitores que trabalhavam com crianças — algo que não era fornecido de forma sistemática anteriormente. Uma segunda organização, #MeTooEcole, afirma que o escândalo mudou a forma como a sociedade francesa enxerga o ambiente escolar, que não é mais o “santuário” idealizado anteriormente.
“Se houve um erro coletivo, foi tratar esses incidentes como isolados, quando na verdade apontam para um risco sistêmico”, disse o prefeito de Paris, Emmanuel Grégoire, ao jornal francês Le Monde. Recém-eleito, Grégoire lançou um plano de 20 milhões de euros (mais de R$ 116 milhões, na cotação atual) para enfrentar o que definiu como “grande disfunção” no sistema de monitoramento escolar da cidade.