Após a divulgação do áudio em que o senador Flávio Bolsonaro (PL) pede dinheiro ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, pesquisas eleitorais apontaram uma queda do pré-candidato do PL à Presidência da República nas simulações de voto contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) — até então os levantamentos mostravam um empate técnico entre os dois.

Em meio a crise, Flávio e seus aliados questionaram o resultado da pesquisa feita pela AtlasIntel, que apontou uma queda de cinco pontos percentuais para o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) no primeiro turno e de seis pontos em eventual segundo turno contra o Lula. Para o partido PL, a sequência das perguntas, a forma de apresentação dos temas e o uso de associações entre Flávio e Vorcaro “contaminam e induzem as respostas dos entrevistados, comprometendo a integridade dos resultados”.

O Metrópoles procurou especialistas em pesquisas eleitorais e campanhas políticas para saber o questionário apresentado aos eleitores nas sondagens pode induzir as respostas. Em um contexto geral, eles afirmam que os levantamentos podem realmente influenciar os entrevistados, a depender da forma como a pergunta é construída. Contudo, no caso da Atlas, a análise é de que, em princípio, não há indícios de irregularidade.

“A intenção de voto veio antes do bloco sobre o episódio envolvendo Daniel Vorcaro. Então, o eleitor já tinha declarado seu voto antes de entrar naquele assunto. Eles foram corretos, portanto não teve contaminação”, avalia o estrategista Wilson Pedroso.

Segundo ele, para ter um problema real na pesquisa, “precisa existir uma distorção metodológica clara”. Pedroso explica que o debate normalmente fica muito mais técnico do que político dentro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), órgão responsável por validar os levantamentos realizados pelos institutos.

Nessa sexta (22/5), o Datafolha divulgou uma nova pesquisa de intenções de voto para a Presidência da República que também mostrou queda de Flávio Bolsonaro após a revelação do caso Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro que recebeu patrocínio milionário do Banco Master. De acordo com o instituto, Lula abriu quatro pontos percentuais de vantagem sobre o senador carioca.

Formato pode induzir o entrevistado?

A interferência na resposta do entrevistado pode ocorrer por meio de diversos elementos estruturais e metodológicos. De acordo com especialistas, os temas apresentados são cruciais para o resultado.

Segundo Wilson Pedroso, sócio da Real Time Big Data, a pesquisa é muito sensível ao ambiente da pergunta. Se você coloca um tema emocional antes da intenção de voto, aquilo pode mexer com a resposta seguinte. Isso vale tanto para política quanto para consumo”, diz.

Para o consultor político, que trabalhou nas campanhas tucanas de João Doria, Bruno Covas e Rodrigo Garcia, o formato on-line de apresentação do questionário aplicado aos entrevistados tem peso considerável.

“No on-line, o layout também pesa. Questionário longo demais faz o entrevistado responder no automático. Pergunta no fim recebe menos atenção do que pergunta no começo. Em celular, isso fica ainda mais forte, porque a leitura é mais rápida e superficial”, acrescenta.

Além disso, um questionário muito longo pode cansar o eleitor, independentemente do formato escolhido, seja presencial, por telefone ou on-line. Conforme Fernando Ivo Antunes, sócio do Instituto de Pesquisa Política (Inpep), todo a construção dessa relação interativa influencia. “A busca dos institutos é pela menor taxa possível de interferência”, afirma.

“O modo como se constrói o questionário ou como o pesquisador interage com o eleitor pode, sim, induzir o entrevistado. A boa pesquisa busca compreender o sentimento do eleitor com as informações postas no cotidiano e não ajudar o eleitor com algum input para então obter a resposta da pesquisa. Por isso, é fundamental a imprensa conhecer o método utilizado e o questionário completo”, alerta.

Antunes observa que um método mal feito pode causar danos à própria democracia. “Acredito que o eleitor tenha o direito de saber como está a intenção de voto, rejeição e outros dados que uma boa pesquisa pode ofertar, mas se isso não está dentro de um método sério, o prejuízo pode ser danoso para a democracia.”


Quali x Quanti

As pesquisas eleitorais funcionam como ferramentas técnicas para captar o sentimento do eleitorado. Dividem-se em diferentes tipos, métodos de coleta e estruturas de questionário. Existem duas abordagens principais que se complementam:

  • Quantitativa: é a mais comum, focada em medir dados numéricos, como intenção de voto, índices de rejeição e nível de conhecimento dos candidatos.
  • Qualitativa: busca entender as motivações subjetivas por trás dos números, investigando o que leva o eleitor a escolher determinado candidato ou como ele percebe temas específico.

Há um dilema econômico, segundo Wilson Pedroso, na escolha do método. A pesquisa presencial ainda consegue alcançar melhor quem é menos conectado, principalmente no interior e nas faixas de renda mais baixas. A telefônica ganhou velocidade, mas sofre muito com gente que não atende ligação desconhecida. Já a on-line cresceu muito porque entrega resultado rápido e com custo menor”, diz.

Já Fernando Antunes ressalta que o comportamento do entrevistado é distinto frente às duas técnicas: “Não há um método errado e outro certo. São estilos diferentes e isso influencia no comportamento do eleitor, pois ele se comporta diferente quando está frente a frente com um pesquisador e quando está apenas com o celular na mão respondendo algo.”

O TSE exige registro completo da pesquisa, metodologia, amostra, questionário e contratante. “Quando aparece uma acusação de indução, o tribunal olha principalmente a ordem das perguntas, a linguagem usada e se houve algum direcionamento explícito”, diz Pedroso.

Em sua avaliação, olhar apenas o número é um erro. “O mais importante é entender contexto, momento da coleta, perfil da amostra e estrutura do questionário”.



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