O crescimento acelerado de casos de câncer em adultos com menos de 50 anos tem disparado alertas na comunidade médica global. O fenômeno, que inclui o câncer de intestino e outros tumores, não é explicado apenas pelo envelhecimento natural das células ou pela melhoria dos diagnósticos precoces, segundo especialistas.
Em entrevista ao Dr. Roberto Kalil no CNN Sinais Vitais deste sábado (23), os oncologistas Paulo Hoff e Maria Ignez Braghiroli, do ICESP (Instituto do Câncer do Estado de São Paulo), analisaram as possíveis causas dessa transformação epidemiológica e destacaram o papel do estilo de vida e dos fatores ambientais no desenvolvimento da doença em pessoas mais jovens.
Paulo Hoff descreveu o cenário atual como um momento de “migração epidemiológica”. Segundo ele, o câncer de intestino ainda é mais comum em pessoas com mais de 60 anos, mas era considerado raro em indivíduos abaixo dos 50 anos.
“Nós estamos vendo um aumento real na incidência. Não é só diagnóstico precoce, como algumas pessoas imaginam”, afirmou. Ele explicou que, com o envelhecimento, o organismo acumula mais mutações celulares ao longo do tempo, o que naturalmente eleva o risco de desenvolvimento de tumores.
“Por que isso está acontecendo no jovem? É o grande desafio da medicina agora”, questionou.
Maria Ignez Braghiroli descartou a predisposição genética como principal causa do aumento. Ela ressaltou que, embora jovens com câncer possam ter histórico familiar, a frequência dessa predisposição é semelhante à observada em indivíduos com mais de 50 anos.
“Não parece ser só uma questão genética. O que se imagina hoje é que tem muito a ver com o nosso estilo de vida e fatores ambientais”, disse.
O papel do bioma intestinal
Hoff destacou um fator considerado novo e relevante: o impacto do bioma intestinal, ou seja, o conjunto de microrganismos que compõem a flora do intestino, sobre o risco de desenvolver câncer.
Segundo ele, o uso frequente de antibióticos pode estar associado a uma flora menos favorável, assim como uma alimentação rica em gordura e ultraprocessados. “O impacto dessas bactérias no nosso intestino é muito maior do que nós imaginávamos pouco tempo atrás”, afirmou.
Braghiroli complementou, explicando que as bactérias intestinais têm uma relação estreita com o sistema imunológico. Ela lembrou que o organismo produz células alteradas diariamente e que o sistema imune tem papel crucial na identificação dessas células.
A especialista também mencionou que, no caso da imunoterapia, tratamento utilizado em doenças como o melanoma, fatores como o uso de antibióticos, o horário de aplicação do medicamento e o estado do bioma intestinal influenciam diretamente a eficácia do tratamento.