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Há um lema no consultório dos endocrinologistas. Perder peso não é tão difícil. Difícil mesmo é evitar a volta do peso perdido. Isso porque a própria biologia conspira contra o emagrecimento. O organismo, acostumado ao antigo estado de equilíbrio calórico e metabólico, teima em retornar à sua velha zona de conforto gorduroso. É assim que, com frequência, se chega a um platô no processo de perda de peso e, no mais incômodo dos cenários, o indivíduo vivencia o retorno dos quilos extras. Eis o famigerado efeito sanfona, um fenômeno que faz tanta gente experimentar altos e baixos na balança ao longo do tempo, com consequências visíveis ou invisíveis ao espelho. Agora, novas pesquisas ajudam a calcular a melhor rota para evitar ou mitigar essa situação, especialmente quando remédios como as canetas emagrecedoras entram em cena.

O assunto foi destaque no recente Congresso Europeu de Obesidade, realizado em Istambul, na Turquia, e leva em conta algo que os estudos já vêm mostrando: mesmo pessoas que perdem peso com Wegovy ou Mounjaro tendem a engordar quando param o tratamento. Esses achados, também observados nas consultas médicas, ressaltam o aspecto crônico e reincidente da obesidade. Se não houver mudanças no estilo de vida de fato — e, muitas vezes, o acompanhamento com medicações —, o efeito sanfona dará as caras. Foi diante desse dilema que cientistas decidiram testar uma abordagem diferente: e se os pacientes que atingissem uma meta de redução de peso continuassem tomando os remédios, mas em outras dosagens e formas de administração?
No primeiro desses experimentos, pessoas que tomaram por pouco mais de um ano uma injeção semanal de tirzepatida (Mounjaro) e perderam ao menos 5% do peso foram divididas em grupos: umas seguiram com a dose máxima da caneta, outras reduziram a carga, e houve quem recebesse o placebo — picadas sem o princípio ativo para fins comparativos. Mais de cinquenta semanas depois, os pesquisadores notaram que a turma da dose máxima perdeu mais peso, mas quem tomou a dose menor preservou boa parte dos resultados, recuperando apenas uma fração do que foi eliminado. Em outra pesquisa com usuários de Wegovy ou Mounjaro, a troca das canetas por um comprimido — no caso, o orforglipron, um análogo de GLP-1 via oral já aprovado no exterior, mas que ainda aguarda aval da Anvisa — propiciou a manutenção de quase todo o peso perdido. “Se levarmos em consideração que pacientes costumam interromper o tratamento devido ao custo ou aos efeitos colaterais, essas análises indicam que existem alternativas medicamentosas para sustentar os resultados obtidos de uma forma mais factível”, diz o endocrinologista Carlos Eduardo Barra Couri, da USP de Ribeirão Preto.
Mas o segredo do sucesso, claro, não é vendido em pílulas nem em canetas. Sem alterar os hábitos nem ajustar a rotina, dificilmente o novo peso será preservado. Nesse contexto, além dos cuidados com a dieta e o bem-estar mental, os especialistas destacam a importância da atividade física. “O exercício regular é um dos fatores mais críticos para a manutenção de um peso saudável”, afirma Couri.

Mas será que o vaivém dos quilos é algo tão pernicioso? As evidências apontam que o efeito sanfona seria prejudicial do ponto de vista metabólico e cardiovascular — como se submetesse o corpo a um estresse. Contudo, uma nova análise israelense, amparada em dados de 480 participantes que se engajaram em intervenções temporárias para controle do peso, revela que o retorno dos quilos não veio acompanhado de uma piora da saúde, sugerindo que o também chamado efeito ioiô não seria tão ruim assim. “O estudo tem limitações, uma delas o fato de as pessoas terem perdido pouco peso, mas levanta a hipótese de que fazer mudanças no estilo de vida, mesmo recuperando uma parte do peso depois, traria algum benefício”, diz o endocrinologista Bruno Halpern, da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica. O consenso é que não dá para ficar parado. Com ou sem remédio na receita, mobilizar-se diante do excesso de peso é condição inegociável para ampliar a qualidade e a expectativa de vida.
Publicado em VEJA de 22 de maio de 2026, edição nº 2996
