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Conviver com o risco de uma intempérie apocalíptica é, infelizmente, algo bem conhecido para a população de Nova Orleans, no estado americano da Louisiana. Meca do jazz e da culinária creole, a cidade de 350 000 habitantes foi arrasada em 2005 pelo furacão Katrina, que deixou 1 900 mortos e um rastro de destruição. Pouco mais de vinte anos depois da tragédia, seus moradores acabam de receber uma notícia perturbadora — cujas consequências podem ser bem mais graves e duradouras até que os estragos do Katrina. Segundo um estudo recém-publicado na revista Nature Sustainability, a cidade passará por mudanças dramáticas nos próximos anos: com o avanço do mar provocado pelas mudanças climáticas e degradação de áreas vegetais inundáveis, a linha costeira deve avançar para o interior da Louisiana em até 100 quilômetros. Se essa previsão científica se confirmar, o novo apocalipse de Nova Orleans deverá vir na forma de um verdadeiro dilúvio: bairros inteiros serão tomados pelas águas e seu centro urbano corre o risco de virar uma ilha no Golfo do México.
O alerta sobre a cidade americana não deve ser visto como um fato isolado. Atingidas pelas transformações do clima e pela ação desordenada do ser humano, diversas metrópoles enfrentam situações que estão mudando a geografia global. Que esses problemas cobrariam seu preço um dia é um dado que já se imaginava. Mas agora os cientistas dispõem de novos métodos de rastreamento que estão revelando a extensão real dos riscos. Satélites muito mais precisos que os do passado, capazes de detectar deformações milimétricas no solo, registram que, enquanto o nível dos oceanos aumenta, as cidades se movimentam no sentido contrário: afundam pelo excesso de peso das construções, pelo bombeamento de água do solo e pela devastação da biodiversidade.

O movimento de encolhimento das cidades é acompanhado atualmente em tempo real. Pesquisadores conseguem identificar quais bairros, avenidas, portos, sistemas de drenagem e linhas de metrô estão comprometidos — e em que velocidade podem se tornar inviáveis. Imagens do satélite Nisar, desenvolvido pela Nasa em parceria com a agência espacial indiana Isro, mostram que partes da Cidade do México estão afundando mais de 2 centímetros por mês — algo extremo em termos urbanos. A subsidência, nome técnico desses eventos, é causada principalmente pela extração excessiva de água subterrânea do aquífero sobre o qual a cidade foi construída. O fenômeno ocorre há mais de um século, mas os novos radares do Nisar detectaram regiões críticas, onde as taxas chegaram a 35 centímetros por ano.
A mesma sina ameaça Jacarta, capital da Indonésia — atualmente, a maior megalópole do planeta, com 42 milhões de habitantes. Ela detém outro recorde triste: já ultrapassou a capital do México como cidade do mundo que afunda em maior velocidade. O movimento é tão acelerado que o governo indonésio iniciou a transferência administrativa do país para um novo local, Nusantara. Especialistas apontam que quase metade de Jacarta já está abaixo do nível do mar. O principal motivo disso é a exploração excessiva de poços de água, necessária diante da falta de uma rede eficiente de abastecimento.
A precisão das novas formas tecnológicas de diagnosticar os problemas assusta, mas traz uma contrapartida positiva: a possibilidade de reagir e tomar providências antes de um cataclisma. De novo, o exemplo de Nova Orleans é instrutivo. Assentada numa bacia abaixo do nível do mar, protegida por um complexo sistema de diques e bombas construído após o furacão, ela agora terá de encarar os efeitos da elevação do mar. A diminuição do território tomado pelas águas requer, de acordo com o estudo da Nature Sustainability, medidas como a retirada planejada da população das áreas que se tornarão inabitáveis.

Pesquisadores reforçam a urgência de políticas públicas para uma remoção gradual, reduzindo perdas humanas, emocionais e patrimoniais. A ideia, enfim, é agir antes do caos. “Esperar pela urgência é optar por remoções forçadas, desconsiderando o vínculo das pessoas com o território”, diz Flávia Martinelli, especialista em mudanças climáticas do WWF-Brasil.
Nas metrópoles que enfrentam o afundamento de suas terras, a necessidade de intervenção não é menos urgente. Na Cidade do México, esse processo já traz prejuízos à infraestrutura. Em 2021, houve o colapso de um viaduto do metrô que operava havia menos de dez anos. A ocorrência levou a Faculdade de Engenharia da Universidade Autônoma do México a avaliar o impacto em todo o sistema. Constatou-se que há regiões que afundam 1 metro por ano, o que alerta para uma vida útil mais curta do que a programada no projeto do metrô.
Qual a saída para problemas assim? Para o climatologista Carlos Nobre, o jeito é recuar: desocupar áreas de risco, reduzir construções e restaurar a cobertura natural do mangue, que é berçário da vida marinha e proteção natural contra inundações: “Não é retrocesso urbano, mas avanço rumo ao equilíbrio”. As cidades precisam agir, antes que sumam do mapa.
Publicado em VEJA de 22 de maio de 2026, edição nº 2996