
Um dos grandes desafios atuais da sustentabilidade é o financiamento climático. Como direcionar dinheiro para empreendimentos e projetos que ajudam na mitigação e adaptação às mudanças climáticas? Em entrevista ao programa Veja+Verde, Fabiana Goulart, vice-presidente de sustentabilidade da GEF Capital Partners, defende que o principal desafio da transição para uma economia de baixo carbono é ampliar a participação do setor privado no financiamento desse setor.
Gestora de private equity com foco climático, a GEF Capital Partners investe em empresas de médio porte que já possuem operação consolidada e potencial de crescimento. Diferentemente dos fundos de venture capital, voltados para companhias em estágio inicial, o private equity trabalha com menos empresas e uma atuação mais próxima da gestão. A estratégia envolve não apenas o aporte financeiro, mas também a profissionalização da companhia, o fortalecimento da governança e a expansão comercial. Hoje, a plataforma administra cerca de 2 bilhões de reais no Brasil e aproximadamente 2 bilhões de dólares globalmente.
Os critérios de investimento da gestora combinam desempenho financeiro e impacto climático. A executiva explica que são priorizadas companhias com receitas recorrentes, margens positivas e capacidade de escala. Ao mesmo tempo, exige que a atividade principal da empresa tenha contribuição concreta para mitigação ou adaptação às mudanças climáticas. “Precisamos realmente garantir que a atividade core do negócio gere adicionalidade climática e esteja alinhada com os principais desafios do contexto brasileiro”, afirma.
Entre os setores prioritários para novos investimentos estão energia limpa, soluções urbanas e agricultura sustentável. No primeiro grupo entram energias renováveis, baterias, eficiência energética e mobilidade de baixo carbono. Já em soluções urbanas, a gestora monitora áreas como saneamento e resíduos sólidos, consideradas estratégicas para aumentar a resiliência das cidades diante dos eventos climáticos extremos. Na agricultura, o foco está em tecnologias ligadas a biofertilizantes, agricultura de precisão e manejo eficiente da água.
Um dos exemplos mencionados é a Automa, companhia de soluções digitais para plantas renováveis. A sua tecnologia desenvolvida aumenta a eficiência operacional de usinas solares e hidrelétricas ao otimizar o envio de energia para o sistema elétrico. A vice-presidente compara o funcionamento da solução ao piloto automático de um carro, que reduz desperdícios ao controlar acelerações e frenagens. A GEF investiu na empresa em 2022, ajudou a estruturar governança e estratégia comercial e, posteriormente, vendeu a operação para um grupo norueguês após quase triplicar a sua receita.
Quanto aos critérios utilizados para medir impacto ambiental e evitar o chamado “greenwashing”, Goulart explica que a análise das empresas parte do princípio internacional conhecido como “do no harm”: garantir que o negócio não provoque danos sociais ou ambientais paralelos. A avaliação inclui aspectos trabalhistas, biodiversidade e relação com comunidades. Além disso, a gestora utiliza taxonomias climáticas internacionais e metodologias de mensuração de emissões evitadas e impacto em adaptação climática. Ela adiciona o fato de que “não basta dizer que um investimento é climático. O investidor quer saber o quanto de retorno climático ele gera para cada real investido.”
A executiva também destaca que a adaptação climática ganhou relevância nas discussões internacionais, especialmente após as últimas conferências do clima. Segundo ela, o conceito envolve preparar cidades, empresas e infraestrutura para lidar com efeitos inevitáveis do aquecimento global, como estresse hídrico e aumento de temperatura. Nesse contexto, o saneamento é citado como uma das áreas mais promissoras dentro da tese de investimento climático no Brasil.
Outro ponto relevante da conversa é o anúncio da participação do Green Climate Fund, o Fundo Verde do Clima da ONU, em um programa estruturado pela GEF Capital Partners. Trata-se da primeira vez que um fundo de private equity brasileiro recebe apoio da iniciativa ligada ao Acordo de Paris, de acordo com Goulart. Para ela, o movimento representa um reconhecimento internacional da capacidade do país de atrair investimentos sustentáveis com retorno financeiro competitivo. “Ainda existe uma percepção equivocada de que investimento climático é filantropia. O que estamos mostrando é que é possível gerar retorno de mercado e, ao mesmo tempo, adicionalidade climática”, reforça.
O VEJA+Verde, conduzido pelo editor Diogo Schelp, traz empresários, personalidades, gestores públicos e especialistas para apresentar suas visões e soluções sobre um dos maiores desafios para a sobrevivência da humanidade: conciliar desenvolvimento econômico e social com preservação do meio ambiente. O programa pode ser assistido toda quinta-feira, às 17h, nos canais Samsung TV Plus canal 2059, LG Channels canal 126, TCL Channel 10031 e Roku 221, além de estar disponível no YouTube de VEJA.