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Um dos temas da abertura do 5º Congresso Brasileiro da Cannabis Medicinal, realizada nesta quinta-feira, 21, em São Paulo, foi o avanço do mercado no país. O evento, que segue até sábado, reúne especialistas, médicos, pesquisadores e representantes da indústria para discutir os avanços científicos, regulatórios e econômicos ligados ao uso medicinal da cannabis no Brasil. Há uma década, o setor praticamente não existia, mas começava a dar seus primeiros passos, quando a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou a importação de óleos medicinais à base de CBD (canabidiol, uma das substâncias da planta). À época, eram usados principalmente por crianças com síndromes raras e refratárias a anticonvulsivantes tradicionais. Atualmente, 68% desses medicamentos são vendidos em grandes redes farmacêuticas, segundo dados da Close-Up, empresa global de análise de mercado.

Embora ainda represente uma fatia pequena diante de mercados consolidados, como antidepressivos e anticonvulsivantes, a cannabis medicinal registra crescimento mais acelerado entre terapias usadas em condições que incluem dor crônica, ansiedade, epilepsias e outros transtornos neurológicos ou psiquiátricos. No último ano, foram vendidos R$ 272,6 milhões em medicamentos à base de Cannabis sativa, um crescimento de 14,5%. Em comparação, os medicamentos para dor cresceram 7,7%, apesar do volume maior de vendas, de R$ 698,9 milhões. “Os antidepressivos cresceram 10,8% e os anticonvulsivantes, 7,8%”, disse Filipe Campos, líder de marketing da Close-Up.

Os dados indicam que, embora ainda distante do tamanho dos mercados tradicionais, a cannabis medicinal avança em ritmo superior ao de categorias consolidadas ligadas à saúde mental, neurologia e controle da dor. O mercado de antidepressivos, por exemplo, movimentou R$ 5,9 bilhões no período analisado, enquanto o de anticonvulsivantes alcançou R$ 1,8 bilhão.

Neurocientista de destaque no Brasil, Sidarta Ribeiro, do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, costuma afirmar que “a maconha está para a medicina do século XXI, assim como os antibióticos estiveram para o século passado”. Para ele, a planta não atua como um medicamento de alvo único, mas como uma espécie de farmacopéia, com moléculas capazes de interagir com diferentes sistemas do organismo.

O potencial terapêutico associado aos avanços regulatórios abriu novas perspectivas para o setor. Recentemente, mudanças na regulamentação ampliaram o debate sobre o cultivo para fins medicinais no país, tema visto como estratégico para aumentar a competitividade nacional. “Os produtos brasileiros podem ganhar mais competitividade quando comparados aos importados”, afirma Maria Eugênia Riscala, CEO e cofundadora da Kaya Mind, primeira empresa especializada em análise do mercado de cannabis no país.

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Hoje, a importação ainda representa uma porta de entrada relevante para consumidores, sobretudo pela maior variedade de produtos e preços mais baixos. Segundo a Kaya Mind, medicamentos importados podem custar, em média, cerca de 100 reais menos do que os nacionais. A diferença, porém, tende a diminuir apenas com o amadurecimento da cadeia produtiva brasileira.

Isso não depende apenas da regulamentação, mas também de investimentos em pesquisa, incentivos ao setor e da consolidação do cultivo nacional em escala comercial — um cenário que ainda está em construção. O desafio, agora, é fazer com que o ritmo acelerado de crescimento do mercado seja acompanhado pela expansão da pesquisa científica e pela capacidade do país de desenvolver tecnologia própria em um setor que movimenta bilhões globalmente.



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